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O Santo Papa, o Congresso da UNE e a iniciação de um político

O Santo Papa, o Congresso da UNE e a iniciação de um político

Era meados de 1980 quando eu e o amigo Décio Lima pegamos um ônibus com destino ao Rio de Janeiro para participar do Congresso da União Nacional dos Estudantes, a UNE.
Tempos ainda de ditadura militar, que tinha então no comando do regime o general João Figueiredo, aquele que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo. Décio era presidente do Diretório Central dos Estudantes da Fepevi, hoje Univali, e eu diretor cultural da entidade.
Viajávamos tranquilos quando, ao entrarmos em São Paulo, um grande aparato de segurança bloqueava o trânsito. O Papa João Paulo II lá estava, em visita oficial ao país que possui o maior número de católicos do mundo. Para chegar ao Rio de Janeiro, o ônibus teria que fazer um desvio por Belo Horizonte para então seguir até a Cidade Maravilhosa. As 17 horas previstas de viagem seriam acrescidas de mais umas cinco ou seis.
Fazer o quê, eram os desígnios do representante de Deus, e quem éramos nós para reclamar do incômodo causado pelo Sumo Pontífice! Relaxamos e, numa parada para um café, Décio e eu resolvemos comprar um garrafão de vinho para distrair o tempo e alegrar o percurso. Não deu outra, no final boa parte dos passageiros se rendeu ao chamado de Baco e a até então sóbria viagem mais parecia uma excursão.
Os sisudos passageiros já transpiravam alegria, parecia que todos ali eram velhos conhecidos. Eu e Décio entabulamos conversa com duas belas mulheres que sentavam no banco à nossa frente, uma com seus 18 aninhos e a outra com o dobro disto. A mais nova veio sentar-se ao meu lado, enquanto Décio passou para o assento ao lado da outra, que dizia ser modelo.
Não demorou e a euforia inebriante causada pelo vinho surtia seus efeitos e todos ficaram mais leves e descontraídos. Que festança! Tudo transcorria maravilhosamente bem até pararmos na rodoviária do Rio de Janeiro.
De repente, um batalhão de policiais armados cercou o ônibus. – Pronto Décio, fomos descobertos pelos agentes da ditadura e a prisão nos aguarda, falei, um tanto amedrontado. Imediatamente pegamos o calhamaço de panfletos subversivos que trazíamos em uma mochila e escondemos embaixo dos assentos. Um por um os passageiros iam deixando o ônibus, sob os olhares atentos dos policiais.
Para nosso espanto, duas pessoas foram detidas, justamente aquelas com as quais nos refestelávamos em embriagantes e sedutoras palavras e algo mais. Descobrimos que se tratavam de mãe e filha, e que esta havia sido raptada pela mãe em Blumenau, onde vivia sob a guarda do pai. Bom, pelo menos estávamos sãos e salvos, livres dos porões da ditadura.
Depois de deixar nossas coisas em um alojamento no bairro de Botafogo, destinado pela UNE aos participantes do Congresso, fomos até o local onde aconteciam os debates das lideranças estudantis que tinham vindo dos vários estados para discutir os rumos da educação brasileira e a pesada atmosfera de repressão às liberdades civis.
Após algumas horas ouvindo discursos, palavras de ordem e exaustivas discussões, resolvemos ir a um shopping para saciar a fome e a sede. Já era noite. Quando nos aproximávamos de uma lanchonete na área central do shopping, que coincidência: a garçonete do estabelecimento era justamente a mãe raptora, que depois de depoimento na delegacia já havia sido liberada e retomado suas atividades cotidianas.
Prestava serviço numa lanchonete. E gabava-se dizendo ser modelo. Para evitar constrangimentos, antes que ela nos visse nos afastamos rapidamente, saímos do shopping e fomos saciar a fome em um carrinho de lanche na praia de Botafogo. Estávamos os dois na maior pindura e comemos apenas um cachorro quente cada um, insuficiente para o tamanho do buraco em nossos estômagos.
Mas tudo bem, afinal estávamos na paradisíaca cidade do Rio de Janeiro e queríamos mais do que simplesmente saciar a fome. O espírito de nos aventurarmos pela noite carioca era latente. Precisávamos tomar uma decisão: ou comemos ou vamos beber uns tragos e nos divertir. Saiu vitoriosa a segunda opção, óbvio!
Altas horas, de cara cheia, alma leve e bolsos literalmente vazios, sem dinheiro nem para as passagens de volta a Itajaí, caminhávamos trôpegos mas felizes pelas reluzentes avenidas do Rio. Até que, debaixo de uma marquise nos deparamos com um casal e várias crianças, amontoadas, dormindo sobre andrajos de cobertor e pedaços de papelão.
A visão deixou Décio transtornado. Comovido, abraçou-se a mim e, aos prantos começou a discursar, dizendo que somente quando a esquerda tomasse o poder aquilo iria acabar, que era urgente derrubar a ditadura, que a injustiça social era algo extremamente desumano, que a fome era uma chaga aberta que matava diariamente dezenas de brasileiros etc etc.
E assim fomos, caminhando abraçados e emocionados, até chegarmos ao alojamento. No dia seguinte, uma vaquinha feita entre participantes do Congresso da os proporcionaria dinheiro suficiente para o retorno a Itajaí.
Apesar de franzino, Décio e a oratória sempre entraram em comunhão. A eloquência nos discursos sempre foi uma característica marcante de sua personalidade. Em tenra idade já demonstrava capacidade inata para liderar, e muito cedo elegeu-se presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Salesiano. Foi lá que o conheci e tive a certeza de que ele futuramente exerceria cargos públicos, de que seria um bom político.
E o tempo passou… Depois de formar-se em Direito na Fepevi, Décio acabou indo exercer o ofício em Blumenau, mais precisamente no poderoso Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Têxtil. Elegeu-se vereador, reelegeu-se, candidatou-se a prefeito de Blumenau, venceu a eleição, foi reconduzido ao cargo e mais adiante foi candidato reeleito para um terceiro mandato como deputado federal pelo PT. E certamente permanecerá ainda um bom tempo em Brasília.
A proximidade de Décio com Lula é tão grande que foi convidado para padrinho do neto do ex-presidente. Na sua trajetória, Décio Lima certamente acumula muitos méritos, mas provavelmente também alguns deméritos. Aquele adolescente destemido e idealista ficou no passado. Infelizmente a política tem o poder de conspurcar a alma daqueles sonhadores mais incautos.
Há algum tempo, Décio me confidenciou estar cansado de tudo, que pensava seriamente em deixar a política. Mas qual, é certo que foi só um desabafo num momento de natural desilusão com os métodos e as práticas que é obrigado a cumprir em obediência às diretrizes ditadas pelo partido, que por vezes podem provocar naqueles mais bem-intencionados um transe de consciência.
A política já impregnou-lhe há muito a mente, o corpo e sua alma. Décio Lima jamais conseguirá desvencilhar-se do mundo em que se meteu, a não ser no inevitável desenlace final dos seus dias aqui neste fascinante e maltratado planeta.
Como amigo sincero que sempre fui, só posso desejar a ele que escolha sempre o melhor caminho. E o melhor caminho é e sempre será aquele que contemple as aspirações do povo. Afinal, são do povo os mandatos que mantêm Décio onde está!

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Emerson Ghislandi é jornalista, estudou e trabalhou na Universidade do Vale do Itajaí.
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