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Escola com censura?


Escola com censura?

Vereador de Balneário Camboriú propôs recentemente na Câmara um projeto de lei que representa uma grave ameaça de censura aos professores em sala de aula. O “Escola Sem Partido,” na explicação do vereador Leonardo Piruka (PP), seria uma forma de “brecar ideologias políticas que se chocam com os valores da família e com os bons costumes”. Traduzindo: institui a “Escola com Censura”. A reação de educadores e especialistas em Educação foi de revolta. Afinal, com que embasamento teórico ou legal o vereador pretende interferir em temas discutidos em sala de aula?

Escola sem tabu
Escola é lugar de debate, de troca de ideias, de produção de conhecimento. Nenhum tema pode ser proibido ou censurado. Professores podem e devem falar sobre política, religião, cultura, educação, sexualidade, ciências, artes, literatura etc. Que medíocre seria a escola se todos os mestres tivessem visões de mundo e experiências de vida iguais. Quem nunca teve um professor conservador ou muito religioso? Quem não se lembra dos seus professores contestadores e críticos ao “sistema”? A escola é o espaço que acolhe e prepara os alunos para o mundo lá fora, e por isso o debate é tão salutar. Se ela censurar ou mascarar a complexidade do mundo real, que tipo de cidadãos estará formando?

Seres pensantes
Este tipo de projeto, além de estimular o preconceito e a intolerância, subestima o espírito crítico dos próprios alunos. Afinal, o professor ter uma visão de mundo diferente da que o vereador julga “ideal”, já o transforma num “perigoso doutrinador”? Não! Os alunos têm crenças, valores, etnias, condições econômicas, culturais e sociais diferentes. Não são seres ingênuos ou passíveis de mera “doutrinação”. Ao contrário, através das aulas, dos debates e reflexões em sala, tornam-se cidadãos críticos e pensantes, e não seres alienados.

Ditadura
Quando a Câmara faz uma lei prevendo que um professor seja punido por algo que disse em sala, acaba o direito de expressão e se instituiu a escola com censura. Um projeto desta natureza é um desserviço à educação. Pais, conservadores ou liberais, devem lembrar-se que os filhos são criados para o mundo. Precisam aprender a conviver, criticar, debater e respeitar. O mercado de trabalho, a vida social, a convivência com vizinhos, os relacionamentos afetivos, tudo pressupõe tolerância e respeito. Vivemos numa democracia e é importante que isso fique claro ainda na fase escolar.

Filhos vigiados
Outro projeto igualmente polêmico é o do vereador Roberto Souza Júnior (PMDB). Ele quer obrigar todas as creches particulares de Balneário Camboriú a dispor de circuito de câmeras com acesso via internet, em tempo real, aos pais. Segundo o vereador, desta forma, os pais poderiam “vigiar” o que acontece aos filhos. Seria oportuno que o vereador ouvisse a opinião de especialistas, educadores, pais e donos de escolas. Creches particulares são contratadas pelas famílias por livre escolha. Os serviços oferecidos, a estrutura física, o valor da mensalidade, a equipe, tornam-se os diferenciais entre elas. Parece estranho que seja um vereador a dizer que todas as escolas precisem dispor de câmeras.

Vantagem ou desvantagem?
A relação entre a escola e as famílias é, antes de tudo, um pacto de confiança. Pais deixam seus filhos, muitas vezes, em tempo integral no ambiente escolar. Pressupõe-se que há confiança no método, na estrutura e nos profissionais que ali estão. O que acrescentaria um circuito de câmeras para devassar a vivência em sala de aula para centenas de pais que poderiam vigiar as atividades de todos os alunos? Há pais que acham isso uma grande vantagem e podem procurar escolinhas que ofereçam essa possibilidade. Mas há muitos outros que consideram isso uma invasão. E não apreciam que outras pessoas tenham acesso às imagens dos filhos nas mais diferentes situações. Brincando, fazendo tarefas, apresentando trabalhos, dormindo, ou tomando banho, por exemplo.

Big brother
E se os vídeos forem parar no Facebook de algum pai ou mãe que aprecie exibir os filhos na sala de aula? Já houve reflexão sobre as consequências de um circuto de câmeras que pode ser acessado por um grande número de pessoas? Os projetos de lei de Piruka e Roberto Souza demostram que, talvez, falte uma conexão entre as propostas apresentadas na Câmara e a verdadeira função de um vereador/legislador. Afinal, vereador deve ditar regras para as escolas e professores a partir da sua particular visão da realidade?

Fica a dica
Sugestão aos vereadores. Se de fato estão interessados em melhorar a qualidade de vida das crianças, é importante que fiquem de olho numa novidade em Balneário Camboriú. Tal situação costuma ser comum em grandes cidades, aquelas assoladas pela violência e a miséria, mas por aqui não se via há muito. Vários meninos pequenos, todos em idade escolar, têm se arriscado em sinaleiras, especialmente na avenida do Estado Dalmo Vieira, no centro. Eles vendem balas e doces aos motoristas que param nos sinais. Essas crianças trabalhando em idade escolar têm famílias? Frequentam a escola? Os pais estão cadastrados em serviços de assistência social?

Não cabe aqui
Balneário Camboriú é uma cidade rica e desenvolvida para aceitar que crianças fiquem fora da escola, arriscando a vida numa sinaleira para vender balas. Provavelmente estão ali para ajudar a família com o dinheiro. É uma época de crise, de desemprego, e a miséria e a violência assustam pela intensidade. Mas certamente Balneário pode oferecer programas que assistam essas crianças e famílias. Lugar de criança pequena é na escola. Todos os direitos desses menores precisam ser garantidos para que eles possam sair das ruas.

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