Home Colunistas Exitus na Política A política medieval: discordar e agredir

A política medieval: discordar e agredir

Para vivermos, como espécie humana ou como seres sociais, é fundamental que estejamos em associação com o meio, com o que nos é externo. Precisamos de oxigênio, de alimentos, de espaços para habitar, de locais para deixar nossos dejetos. Sem essa interação homem-ambiente não poderíamos ser da forma que somos. Temos que estar com as narinas abertas para o mundo que nos envolve.

Ao mesmo tempo não podemos diluir nossa existência no ambiente de forma a perdermos nossas características. Não podemos sumir no meio ambiente. Marcamos presença, temos um corpo, somos bípedes por efeito das forças musculares que construímos, pela formação em séculos de nossa estrutura óssea. Como unidade de existência temos que estar fechados para o mundo que nos envolve para termos identidade de espécie. Somos seres humanos no mundo. É pela diferença que somos como somos e o mundo é como é.

Se podemos assumir isso para as relações físicas que nos estruturam, então podemos assumir esse fato para a vida social. Vida encarregada de traçar linhas de seleção, escolhas, preferências sem precisar ir ao limite da destruição do divergente. Por todos os lados, as diferenças são os elementos mais importantes nas condições de nossa existência.

Em tempos de transição do comportamento político e eleitoral, as diferenças deveriam acender luzes em nossa razão para melhorarmos nossas ideias. Foi assim construída a modernidade, período da civilização humana que pretendia garantir a Liberdade DE SER [livre expressão], a Igualdade PARA SER [direitos iguais] e a Fraternidade EM SER [o que me machuca, machuca o outro]. Divergir pela forma de expressar ideias, garantir ao outro a mesma condição de se expressar e respeitar as diferenças de ideias é a essencialidade do Período Moderno [1789-20…].

No Período da Idade Média, as diferenças eram tratadas pela força da guerra, pela perseguição aos divergentes, pela eliminação do opositor como num duelo. A Monarquia Absolutista era o regime próprio da vontade de uma elite com capacidade de elaborar leis como vontade pessoal.

Nos dias que completam nossas vidas ontem, hoje e amanhã os posicionamentos políticos e eleitorais têm sido fonte de diferenças, como deve ser. Na Democracia as diferenças são tratadas com a alegria de um eterno aprendiz. É pela Condição Democrática que a diferença permite o passo adiante, de forma elegante, tolerante, respeitosa. Da diferença surge a convergência, o abraço. A Teoria Marxiana [aquela elaborada por Karl Marx] talvez tenha incorrido em erro ao admitir apenas uma causa [monocausalidade econômica] para refletir as transformações sociais e políticas. Há mais no mundo. O espírito revolucionário exprime a violência como método, e a eliminação do opositor como resultado. Há mais, muito mais, no mundo.

E hoje, em análise ainda rasteira, parece que a vitória de um [progressista ou conservador] equivale ao método revolucionário torcido para cá ou distorcido para lá. Os candidatos, ao menos potencialmente, assumem o desejo de vitória como a derrocada do adversário. Pobre e temível futuro. O comportamento violento não é exclusividade de candidatos, pois se lastreiam aos apoiadores. É próprio de nosso tempo. Torço com a urgência de quem quer inaugurar o Período Moderno.

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