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Imaginar a liberdade, viver a instituição

Ser livre e ser seguro ao mesmo instante: o paraíso. Quando saímos de casa para o trabalho, ou para a escola, ou para os templos religiosos, ou para o consumo ou para o lazer, somos liderados pelos processos institucionais. Imaginamos que somos livres, mas que nada!

O nosso tempo – como padrão coletivo – é rigorosamente organizado por funções e responsabilidades e tarefas e metas planificadas fora de nós e independente de cada um. O horário para chegar, as coisas a fazer, o momento de sair, as conveniências a cumprir, as necessidades a serem satisfeitas estão definidos em planos sociais ou institucionais e não por desejos pessoais. E isso nos faz bem.

Ao cumprir essas coordenadas sociais nos colocamos dentro de um roteiro social, econômico e cultural que nos permite agir, sentir, fazer. Isso tudo nos deixa seguros de nossa utilidade, de nossa importância e de nossa posição. Mas, em todo o caso, somos controlados por instituições.

Agora, em tempos de quase-exílio social, nos vemos tendo que dar vazão ao tempo. Inesperadamente nos tornamos donos do tempo individual. Precisamos encarar a vida com a necessidade de fazer as coisas pelas nossas mãos e desejos. E aí parece que tudo fica difícil. Não aprendemos a organizar o tempo e as tarefas. Mas ao contrário, tudo veio a ser in-corporado, em nós. Sempre, uma entidade superior e maior nos disse o que devíamos fazer e quando.

Por um lapso da vida, nos tornamos donos do tempo. E não suportamos a liberdade de “fazer o tempo fluir” por nós mesmos. Módulos, ensinamentos, dicas, e vários roteiros são disponibilizados nas redes sociais para nos ensinar cumprir o dia que passa: um flagrante de nossa estada no planeta. Passamos a carregar a liberdade sobre a própria vida. Isso não é muito fácil.

Alguns descobrem coisas estranhas na forma de viver de seus familiares. Pessoas que nunca viram a vida tão crua de seus parceiros durante períodos contínuos longos [seis dias consecutivos], agora parecem estar diante de comportamentos desconhecidos, inesperados, estranhos. Uma pessoa, talvez, nunca tenha visto um outro coçar uma parte do corpo e isso seria revelador de sua humanidade mais sórdida.

A vida fora da institucionalidade social pode se revelar muito mais dura e difícil do que se imagina. Sem as instituições a nos coordenar, a nos dirigir e a nos entregar nas mãos o roteiro concreto e diário de nossa vida, vinga-se um estado de perplexidade. E isso nos mostra nossos limites sociais. Deixa-nos, de modo escancarados, inseguros.

A autonomia que apreciamos é aquela relativa aos modelos institucionais. Um paradoxo de fazer o que quisermos, desde que seja dentro das regras do jogo institucional. Livres e poderosos, nos imaginamos. Dirigidos e submetidos, somos.

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