Home Colunistas Coluna Existir e Resistir A conscientização como poder transformador do povo negro

A conscientização como poder transformador do povo negro

Nossos ancestrais foram retirados da mãe África e traficados pelo mundo, porém eles não vieram destituídos de pensamentos, crenças, cultura, nossos ancestrais vieram com uma forma de pensar e uma linguagem de reflexão sobre o que significava ser humano e sobre quem eles eram. O psicólogo afro americano Wade Nobles diz que “somente por meio de uma interpretação profunda da linguagem e da lógica de nossa própria ancestralidade seremos nós, os africanos diaspóricos, capazes de verificar os significados e as compreensões que determinadas comunidades transportaram para o maafa da escravidão”.
Marimba Ani introduz o conceito de maafa e o define como o grande desastre, o infortúnio causado ao povo africano, ao serem atravessados pelo Atlântico para serem escravizados, tendo como característica básica a negação da humanidade dos africanos, acompanhada do desprezo e do desrespeito, ao seu direito de existir. O maafa autoriza a perpetuação de um processo sistemático de destruição física e espiritual dos africanos, individual e coletivamente.
Permito-me trazer para essa leitura o professor Molefi Asante, professor e pesquisador africano nascido nos Estados Unidos, que nos traz o termo afrocentricidade, nada mais é que “perceber os sujeitos africanos enquanto sujeitos e agentes de fenômenos, colocando a si mesmos como o centro de ser e estar no mundo e de acordo com suas culturas e seus próprios interesses humanos”.
Com isso podemos entender que nossos ancestrais não vieram destituídos de saberes, eles foram apagados, modificados, apropriados, invisibilizados e desumanizados, por isso a importância de falar das relações afrocentradas, não somente para uma questão romântica e sim para, além disso, o cuidado e o afeto dos pretos e pretas que nos cercam e constituem, tendo um olhar humanizado sobre os nossos irmãos de cor, o respeito e a admiração aos nossos mais velhos e as nossas mulheres negras, nossas mães, nossas irmãs e amigas, que há muito carregam a desumanização em seus corpos, e o fardo de ser a força que move tudo e a todos.
Os respingos deixados aos longos dos séculos ainda escoam em nossas costas, a liberdade assinada no papel, mas a prisão de nossos corpos e mentes ainda se mantém.
Por isso a importância de ter consciência, que nos permite posicionarmos como um agente transformador, tanto para si mesmo como para quem nos cerca quebrando as construções racistas enfincadas em nossa mente. E perceber como as relações afetivas de qualquer configuração que seja com nossos é revolucionária. É sobre colocar os pretos e pretas no centro de nossas referências.
Assim permito-me terminar esse colóquio citando uma das mulheres pretas mais incríveis que já conheci, que acumula em sua vida várias funções sendo uma delas, a de poetisa, compartilho com os leitores uma de suas poesias, que durante a última semana me inspirou e reverberou em mim de tantas formas incríveis.
Preta Ventania.
Matando 10 mil racistas por dia
Pretinha, cheia de referências, africanidade, ancestrais, crenças.
Grande, apesar da altura, pode até cair, mas logo se levanta e ninguém segura.
Ressurge, sorrisão, black enorme, bem leonina.
Atitude de mulher, cútis de menina.
Preta né amores?
É de nós que temos melanina em abundância
Encontrar caminhos para seguir cantando,
Apesar da tua ignorância.
E a rota é sempre pra cima,
Subindo rumo à África, sempre.
Tem nada que incomode mais que preta que descoloniza todo dia sua mente.
Gieri Toledo Alves.
É necessário entender que conquistamos a nossa liberdade diariamente, confrontamos o embranquecimento de nossas mentes ao tornamos conscientes de quem somos. É ir contra um sistema que nos massacra diariamente, é sobre, acima de tudo, resistir e existir e dar poder ao povo preto.
Monike Eva Oliveira Araujo – Membro do Coletivo Frente Negra

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