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Eu, a folha e os semideuses

A realidade é dos domínios do impreciso!
Estava diante da folha branca – sim ainda escrevo nela antes de chegar ao computador – quando observei um velho livro sobre deuses e semideuses criados em nossa história humana. Eis o milagre e os pecados recriados para que os humanos aprendam sobre uma realidade que se sobrepõe aos limites dos mortais.
Lembrava de ditados caros aos humanos tais como lobos não comem lobos quando vejo políticos corruptos falando em moral e que vasculham a vida de outros corruptos desviando a opinião pública de suas artimanhas escusas.
As mitologias de muitas civilizações criam seres intocáveis usando de palavras rebuscadas e de uma retórica invejável. Somos convencidos de suas qualidades e nos justificam suas maldades com palavras doces recheadas de imagens bonitas aos que acreditam e terríveis aos descrentes. Eles, os seres elevados, pairam sobre nossas vidas e lhes é dado o direito à mudar os destinos e punir aos pecadores.
Sim, a realidade não é do domínio dos ditames sagrados ou de caminhos suaves. A realidade é do domínio do impreciso quando a raiz dessa nossa excessiva confiança nos deuses e semideuses está na constituição de nossa cultura. Acreditamos que existe a verdade e o falso. Procuramos a verdade diariamente em meio ao caos que está ali diante dos olhos.
Políticos – aqui aproximados de seres mitológicos em seus intocáveis reinos – que outrora foram os corruptos da vez agridem os corruptos do momento. Quem é ouvido? Aquele que tem vez e voz nessa cultura que não pode martirizar cérebros com temas profundos. Basta um boato, uma frase, uma chamada no jornal e pimba: escândalo instalado.
Enquanto isso, os semideuses pairam sobre bolsos vazios usando a retórica para justificar seus privilégios. Ocupam tribunas para agredir minorias e impor crenças. Abrem contas no exterior enquanto mentes do país são ocupadas com escândalos dos corruptos de hoje. Demarcam posições relaxando com os seus enquanto agridem inimigos políticos. Há um regime de exceção batendo em nossa porta.
A democracia – essa velha e obesa senhora – está doente desde o nascimento.
E lá estou eu com a folha coberta de palavras, relembrando de semideuses – um tanto humanos um tanto sacralizados – em suas privilegiadas posições sociais. Eles padecem de mesquinharias, raivas, orgulhos e são ávidos por mais poderes.
Aos mortais quero dizer sem hesitar que a realidade é imprecisa. Muitas vezes, os belos discursos podem recriar nosso senso de realidade.
Ativar o bom senso faz bem. Experimente.

Fica a dica:
Concorrente ao Oscar, vale assistir A DEMOCRACIA EM VERTIGEM (2019) de Petra Costa. Vale para vermos como uma verdade pode ser criada.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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