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Um vizinho na Otan

Há semanas, explicando porque era difícil vender equipamentos de defesa antimísseis ao Brasil, um executivo russo comentava que, para nós, forças armadas eram “um brinquedo”:
“Eles não têm inimigos. São cercados de florestas”.
Isto está para acabar, porque justamente sob o escudo das florestas esconde-se o perigo. A decisão do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, de associar seu país à Organização do Atlântico Norte, OTAN, põe em xeque uma política mantida pelo Brasil desde 1903, quando se firmou o Tratado de Petrópolis, pondo fim ao contencioso com a Bolívia pelo Acre, nossa última grave questão de fronteiras.
Trata-se de preservar um entorno de paz, tanto nos países vizinhos quanto no Oceano Atlântico, com diplomacia ativa, relações cordiais de não-interferência e supremacia militar discreta. Tal diretiva sobreviveu a episódios tensos como a intervenção da esquadra francesa na “guerra da lagosta”, em 1963, ou a guerra das Malvinas, em 1982.
A projeção extracontinental dessa atitude cautelosa teve, por vezes, vestimenta ambígua: quando a Amazônia foi invadida por um enxame de ongs de supostos missionários e pesquisadores, unidades do Exército foram seguidamente transferidas para a região e se formaram os batalhões de selva. O pretexto, no entanto, variou entre a infiltração fronteiriça de guerrilheiros da Colômbia (as Farc) ou do Peru (Sendero Luminoso) e a ameaça da propaganda cubana.
Recentemente, quando os americanos quiseram investigar e prender muçulmanos do Oeste paranaense acusados de financiar Al-Qaeda, o Brasil apressou-se em mandar sua própria gente cuidar disso. Instrumentos criados pela globalização, como as campanhas identitárias (movimentos gay, negro e ambiental), foram sempre associados “ao comunismo” no discurso oficial, o que permitiu criticá-los sem se comprometer com o “Ocidente”.
Em suma: com todo o radicalismo ideológico da guerra fria — a Operação Condor e outras barbaridades –, o Brasil se manteve em cima do muro em um plano mais amplo da política continental, pendendo para um lado ou para outro, mas sem cair no abismo da adesão sem retorno.
Isso, agora, é praticamente impossível.
Os Estados Unidos preparam uma ação militar contra a Venezuela e buscam apoio; a sereia que encanta a Colômbia certamente quererá nos levar para seu leito. Não creio que ela relute, depois em atrair soldados colombianos ou brasileiros para guerras distantes, defendendo interesses que não são nossos – em difíceis teatros secundários, como aconteceu com a a Segunda Guerra Mundial.
Não por acaso, o Presidente Santos anunciou sua pretensão de filiar a Colômbia à OCDE, uma espécie de clube de ricos que admite como sócios de segundo nível países não tão ricos mas muito obedientes. O Brasil tentou ser admitido lá ano passado, mas mandaram esperar um tempo, até que se complete o ajuste às regras da agremiação: submissão à globalização financeira, menor presença do Estado, menos direitos para os trabalhadores e “luta contra a corrupção”.
Tudo isso, pois, relaciona-se à capitulação do país nos campos da Economia e do Direito, algo que implica renúncia ao modelo de civilização que nossos intelectuais imaginaram, há muito tempo, implantar no Trópico.

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