Home Colunistas Em geral Três caras que gostaram da gente

Três caras que gostaram da gente

O que terá levado Oto Karfen, de 39 anos, a, depois de fugir de sua Viena para a Bélgica premido pelo avanço das tropas do Terceiro Reich, escolher o Brasil para o derradeiro exílio, e fazer dele sua pátria na maturidade?
Oto não era um rapaz comum. Estudou Direito e se formou em Química em Viena, onde frequentou as palestras de Karl Kraus, o célebre crítico e satírico da linguagem e da imprensa mentirosa; aprendeu Matemática e doutorou-se em Filosofia em Leipzig; fez cursos de Sociologia em Paris, Literatura Comparada em Nápoles, e Política em Berlim. Dominava 11 idiomas quando desembarcou no Paraná, em 1940, destinado ao trabalho nas lavouras de café, e aprendeu português em um ano, tão bem que o escolheu para escrever sua História da Literatura Ocidental.
A obra, mais de quatro mil páginas de composição compacta, completada em ano e meio na década de 1940 e editada pela gráfica da revista O Cruzeiro em nove volumes, 11 anos depois (foi reeditada em 2008, em quatro volumes pela Biblioteca do Senado Federal, tem versão .pdf disponível em goo.gl/jkCfhC), é única no Brasil com sua abrangência.
Oto Maria Carpeaux (mudou o nome, com a nacionalidade) foi um brasileiro apaixonado. Jornalista atuante, sua aproximação com o Brasil guarda semelhança com a de outro europeu ilustre e já famoso, Stephan Zweig, que chegou aqui já pelos 50 anos, perseguido e desencantado com a Europa, continente “mais do que nunca governado pela tentativa insana de criar pessoas racialmente puras, como cavalos e cães de corrida”. Deprimido com seu velho mundo cultural que se esfacelava com as duas grandes guerras, ele se matou em Petrópolis, não sem antes afirmar seu espanto pelo “país do futuro”, construído “sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada, a equalização completa do preto e branco, marrom e amarelo”.
Não deve ser diferente a motivação de Vitor Civita, empresário ítalo-americano do setor de mídia e ex-executivo da editora de revistas italianas Mondadori, ao promover a edição em português, em traduções excelentes, de uma seleção de textos dos mais conhecidos e citados filósofos ocidentais, dos Pré-socráticos até os Pós-modernos, em 52 impressionantes volumes de grande tiragem.
Vitor mudou-se para o Brasil em 1949, seguindo rumo paralelo ao do irmão, Cesar, estabelecido em Buenos Aires no mesmo ramo; trouxe na bagagem o que valeria por um cheque em branco – o contrato de exclusividade para a publicação de edições em quadrinhos de Walt Disney. “Chegou o Pato Donald”, dizia a propaganda, quando lançou a primeira publicação, em São Paulo.
Até aí, um empresário como outros, um americano como outros. O que coloca Civita ao lado de Carpeaux e Zweig nesta nossa seleção é a decisão que tomou em 1973 de, empregando intelectuais na época perseguidos pela ditadura militar, contratar a tradução, em geral pioneira, dos textos de “Os Pensadores”, o mais extraordinário evento de divulgação cultural da História brasileira, tantas vezes citado e reproduzido em todos os níveis escolares e acadêmicos.
Não houve motivação comercial que justificasse essa decisão. Deve ter sido algo como o que conquistou Carpeaux e fascinou Zweig.

Compartilhe:

Deixe uma resposta