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Sobre gays, feministas, negros e o moralismo

Nilson Lage

Não havia comunistas em Woodstock, nem Martin Luther King citava Marx em seus discursos.
No entanto, foi uma improbabilíssima invasão cultural cubana que permitiu ao governo brasileiro, então tocado por militares, importar tecnologia na única fonte então disponível, obter financiamento externo e implantar, na década de 1960, a malha pioneira de micro-ondas que deu origem à Rede Amazônica de TV e ao regime legal exclusivo que, na região, permite a operação de mais de 1700 pequenas emissoras de televisão gerando conteúdo próprio.
Quando, nos anos 70, os donos do mundo e o grande capital decidiram despejar dinheiro em organizações não governamentais para fiscalizar e substituir os estados nacionais em missões na área social, abrindo caminho à globalização e espantando ideias, tanto socialistas quanto nacionalistas, a diplomacia de uniforme decidiu denunciar o crime bajulando o criminoso: culpou, não o acerto de Bilderberg ou Zbignew Brzezinski, mas os comunistas pela maré montante que agitava a superfície da sociedade – os movimentos gay, negro, feminista e ambiental, este muito intenso aqui no combate às hidrelétricas, à agricultura extensiva e à “revolução verde” no cerrado brasileiro, alimentada por três ou quatro commodities agrícolas.
Os países socialistas são discretos e tendem a ser conservadores nesses temas mas a tropa, ao que parece, tomou a esperteza dos estrategistas, levou a treta a sério e a encaixou em uma infinidade de ordens-do-dia.
Como o costume prossegue hoje na retórica de enfezados grupos militantes, vale lembrar que esses movimentos, e mais a invasão de religiões agressivas (e do moralismo atuante), a cultura sexy e a voga dos escândalos comportamentais são criações do Ocidente – e americanas. Isso se evidencia nos métodos de atuação, no amplo uso de técnicas de marketing e na retórica individualista.
O feminismo descende de campanhas movidas por senhoras que pretendiam a igualdade dos sexos na gestão da sociedade, as suffragettes, para as quais, no início dos anos 30, Edward Bernays, gênio da propaganda e o pai das relações públicas, encontrou um gesto-símbolo – fumar cigarros em público; nem mesmo a variante europeia do movimento, personificada na figura existencialista de Simone de Beauvoir, associava feminismo a socialismo. A ênfase é, até hoje centrada em temas individuais, como o aborto, mais do que nos sociais, como as creches ou a especialização das leis trabalhistas.
Os movimentos de homossexuais têm local e data consensuais de nascimento: o bar Stonewall, em Nova York onde, em 29 de junho de 1969, os gays encararam a polícia com um ato de resistência cuja repercussão foi maior porque a repressão a comportamentos sexuais desviantes era mais intensa, difunda e apoiada nos países saxônicos do que em outros do Ocidente. Foi também nos Estados Unidos que o movimento pela igualdade racial e étnica, com longo passado histórico, assumiu as características atuais de campanhas políticas revolucionárias similares à luta de classes.
O comunismo, certamente, é outra coisa: ganhou ímpeto no Século XIX europeu, sua bíblia é O Capital, de Karl Marx, e os interessados nele, indistintamente, homens e mulheres; negros, brancos pardos e amarelos; hétero, homo e trans. O que os delimita é a classe social, a posse de bens de produção, não a aparência, a cor da pele ou os hábitos de acasalamento.

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