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Sobre ensino básico

1. Viver com o outro
Houve tempo em que o Exército, precisando de soldados altos e atléticos para compor uma unidade de policiamento ostensivo, decidiu convocar jovens descendentes de europeus, no Sul, e de africanos, na Bahia, para compor duplas de cosme-e-damião.
Quatro décadas depois, em um sítio na serra de Santa Catarina, conversei com um desses homens, tão germânico que guardava no armário, em condição de uso, o uniforme de terceiro sargento, posto em que deu baixa.
O que ouvi – o carinhoso elogio do antigo parceiro – levou-me a conjecturar que, se, como ensina Paulo Freire, as crianças devem ser alfabetizadas a partir dos eventos reais em seu entorno cultural, também é verdade que a sociedade tem muito a ganhar se a convivência entre pessoas de etnias, classes sociais e costumes diferentes for propiciada, em condições cooperativas, na fase escolar da vida.
2. Não há censura inocente
Leio que, por inspiração da OCDE, organização do poder econômico global, países tão diferentes quanto o Japão, França e, agora, Brasil, cuidam de confinar a formação inicial de seus cidadãos aos intentos de ler, escrever e contar.
Não é novidade: atualiza a lógica que, no Século XIX, ao se expandir o ensino às classes populares, aboliu dos currículos a retórica, que habilita a conhecer as artes da argumentação mentirosa, e a Filosofia, investigação dos conceitos e sua articulação na representação humana do universo. O objetivo era eternizar a divisão social do trabalho entre a minoria que pensa, planeja e controla, e a maioria que executa sem pensar.
Se isso fazia mal sentido na Revolução Industrial, pior fará no futuro previsível, em que caberá à inteligência artificial operar os sistemas produtivos, liberando os homens (e mulheres, é óbvio; o masculino faz, aí, o plural de dois gêneros, como é o caso do feminino para as abelhas ou as garças) do que chamamos de ofícios técnicos – a manipulação de instrumentos que multiplicam competências humanas.
Cuida-se de eliminar do ensino básico as ciências — sociais e da natureza — que incomodam: a História já não serve mais para demonstrar que vivemos no melhor dos mundos, e o conhecimento generalizado das leis do universo e da vida ameaça as industrias dos medicamentos, da comida, a gestão do medo e a falsificação dos perigos.
3. Só a paixão nos move
Todo começo, todo assunto novo, é um salto no escuro, entre noções e raciocínios peculiares que se aplicam, às vezes, a diferentes escalas de uma mesma coisa, como no caso da Física, da Química e da Física Nuclear.
O objetivo inicial da pedagogia é, creio, motivar o estudante: convencê-lo de que pode escolher o que quer descobrir, prosseguir descobrindo o que escolheu – e isso vale a pena. Nenhum bloqueio étnico, pressão familiar ou deficiência o impedirão; sempre haverá um professor que o ajude, e que, ao ser superado pelo aluno, se orgulhará disso.
Pelo mesmo raciocínio, acredito que não faz sentido falar do simples antes do complexo. Aprendi com o jornalismo de notícias que se obtém maior proveito ao inverter o método aristotélico. A metodologia do ensino deve fundar-se na remissão, não no relato consecutivo das etapas do conhecimento ou da montagem das peças com que os homens construíram, ao longo do tempo, sua compreensão do mundo. Euclides, Confúcio, Tales de Mileto são pontos de chegada, não de partida: importam pelo que sobrevivem hoje, mais do que pelo que significaram em seu tempo.
O motor do aprendizado é a curiosidade que nasce do espanto, do enigma; se a sabedoria do passado está on line, a chave reside no desejo de encontrá-la, selecionar, nela, o que se aplica, e articular reflexões cabíveis ao momento atual mimetizando experiência alheia: assim se descobrem técnicas e concebem teorias.
Aprender, enfim, deve ser como a vida: adaptação e resposta espontânea aos desafios.

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