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Repaginando a democracia

Nos Estados Unidos, o povo teve que escolher entre um nacionalismo arcaico, alinhado à extrema direita do mundo dos negócios, e o ativismo radical disposto a nivelar abruptamente por baixo a remuneração global do trabalho em benefício do capital. Perdeu Hillary, ganhou Trump.
Na Europa, o fascismo ocupa a faixa do Leste que faz divisa com a Rússia e promove agitações de aparência ideológica ambígua na França, onde o presidente foi eleito graças a oportuna divisão dos partidos populares; a recessão espreme todos e a Inglaterra descola a contragosto porque o povo, enfim, quis (quem mandou consultá-lo?).
Na América Latina, a guerra híbrida impõe Macri, Bolsonaro, a dupla Kuczinski-Vizcarra etc. a partir do domínio de instituições judiciária, midiática e militar, que jamais se libertaram da dependência colonial.
Se não existe hoje, em parte alguma, a democracia modelo de que falam os bem de vida – aquela em que os partidos políticos apresentam seus programas, os eleitores analisam e debatem em encontros cívicos, serenos e racionais, antes de postar seu voto em pessoas confiáveis – não esperem que venha a ocorrer no futuro.
Essa representação idealizada – a que os americanos acrescentaram a alternância periódica do governante – é obra do Iluminismo, movimento cultural que, no século XVIII, deslumbrado com os avanços das ciências da natureza, postulava a essência racional do homem, e daí derivava sua competência para avaliar políticas e gerir a comunidade.
Soube-se logo, com a Revolução Francesa e o tumulto que varreria em seguida toda a Europa, que os homens são movidos pela emoção, não pela razão; suas escolhas se fazem conforme o interesse de classes sociais em conflito e de segmentos em cada classe. Isso que é tão claro a quem analisa os fatos, aparece pouco a quem vive o processo histórico.
Ocorre que os mecanismos de controle social se transformaram. A censura estatal, que vinha dos tempos do absolutismo, desapareceu na Europa em meados do século XIX, substituída pelo domínio econômico de grupos da classe dominante sabre os principais veículos “independentes”, de que dependem os demais.
A velha retórica romana, herdeira da arte ateniense do sofisma, enriqueceu-se de adereços (como o jogo de símbolos e arquétipos) e ampliou seu alcance, não só através de invenções, como o rádio e a TV, mas também beneficiada por estratégias educacionais: postergar a ciência nos cursos profissionais, em lugar de integrá-la ao adestramento dos ofícios, ou dividir a população instruída entre ignorantes de humanidades e ignorantes da natureza – uns capazes, pois, de enganar os outros facilmente.
Campanhas eleitorais tornaram-se jogo de sedução e indução à repulsa; disfarce e distração.
No momento atual, em que a estrutura de dominação montada há séculos se abala – porque a todos é dada a palavra, e a audiência se fragmenta em tribos difusas – as pessoas perdem referências, isto é, não têm mais de onde copiar a opinião conveniente. Estruturam-se, então, novos mecanismos de controle, baseados no direcionamento das mensagens conforme segmentação minuciosa e inteligente do público.
No momento, as alavancas de persuasão são a exaltação de um passado que não houve, o recurso a temores infantis e a contínua exploração do medo.
A primeira questão a considerar é se esse é o único tipo de mensagem (e ponto de apoio) que pode trafegar por essas vias recém-abertas, ou se elas de prestam também ao que temos a dizer. Reformular, então, estratégias que não fazem mais sentido e redefinir o conceito de democracia com maior amplitude, jogando ao lixo o formalismo simplório que jamais se realiza.
Quem sabe chamar de democrática toda forma de ação política em favor da distribuição da riqueza, realização humana, liberdade e paz fundada na busca de consensos?

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