Home Colunistas Em geral Por trás do escândalo, uma jogada que deu certo

Por trás do escândalo, uma jogada que deu certo

O Brasil promove há 40 anos uma revolução no campo e é por isso que a denúncia de fraudes em frigoríficos repercutiu no mundo todo.
Só os bem velhinhos como eu sabem o quanto era comum, nas décadas de 1960 e 1970, a falta de leite, feijão, trigo, banha e óleo vegetal nas cidades. O frango era o almoço de domingo da classe média e boa parte da comida vinha do estrangeiro.
Os pobres pagavam muito caro por isso: na década de 1950, recusei emprego, no Rio de Janeiro, em um serviço médico para bebês subnutridos em que deveria, como seu fosse um deus, decidir quais internar e quais devolver às mães, sabendo que morreriam. O critério estava em um formulário socioeconômico: teria a família meios de manter minimamente alimentada a criança que recuperássemos?
O projeto inicial do álcool motor previa extrair etanol de mandioca, a única planta de bom potencial calórico que se dava bem nos “solos pobres” do cerrado brasileiro. Nos estados centrais e do Oeste, latifúndios ocupavam imensidões em que as raras plantações imitavam, no trópico, usos rurais da Europa, com resultado que, como dizia o caipira paulista no texto de Monteiro Lobato, “não pagava a pena”.
Como toda grande transformação econômica ocorrida no Brasil, esta resultou de decisão política do Estado e envolveu a atuação em duas frentes opostas: conversão do latifúndio em empresa agrícola produtiva e apoio à lavoura familiar, com a reforma agrária.
Nenhum desses processos foi completado – envolvem investimentos contínuos em infraestrutura e educação, além de rumorosas mudanças políticas e, o mais difícil, transformação das mentalidades – mas os resultados alcançados são espetaculares: o Brasil tornou-se um dos maiores produtores mundiais de alimentos e saiu do mapa mundial da fome.
Tudo se fez com a combinação de uma política de crédito e garantia de preços mínimos, conduzida pelos bancos oficiais, e promoção do conhecimento científico em universidades e empresas públicas, a ponto de hoje o problema, quanto ao cerrado, não ser mais o vazio, mas pôr limites à ocupação agrícola em nome da diversidade do ecossistema.
Enriquecer os solos foi apenas parte da questão tecnológica: foi preciso adaptar às condições tropicais culturas temperadas e exóticas, como as do trigo e da soja, aprimorar espécies e criar novas, desenvolver técnicas agrícolas e de pecuária inovadoras; mais recentemente, reduzir o consumo de produtos químicos pesquisando o manejo integrado de cultivos e desenvolvendo inseticidas derivados de fungos.
A representação que os brasileiros fazem de seu país é bipolar – é oba-oba ou não-tem-jeito. A verdade está no meio: 62% do Produto Interno Bruto da agropecuária provém de grandes empreendimentos; 38% de plantios familiares, responsáveis, principalmente, pelo suprimento do mercado interno com destaque para feijão, leite e orgânicos.

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