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Os dois nacionalismos brasileiros

O sonho da independência econômica do Brasil, que agora se dissipa em melancólico torpor, adquiriu consistência com a fundação da Companhia Siderúrgica Nacional e o trabalho da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, no primeiro governo de Getúlio Vargas; tomaria forma, anos depois, com a criação da Petrobras e a construção da hidrelétrica de Paulo Afonso.
Esses eventos resultaram do processo político do trabalhismo brasileiro, espécie de social-democracia que temperava a tradição positivista dos tenentes com a doutrina social da Igreja Católica, confrontando interesses oligárquicos e corporativos, grupos liberais e a militância do Partido Comunista. Iria continuar-se nos governos de Juscelino Kubitschek, João Goulart, e, mais recentemente, nos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Há, porém, outra vertente do nacionalismo brasileiro, que se forjou nos anos 1950, no império da guerra fria, nos quais a asfixiante propaganda americana conseguiu associar o trabalhismo de Vargas aos comunistas, que tão ferozmente o combatiam.
O projeto desenvolvimentista conservador tem um marco pouco conhecido, o programa-manifesto que ocupou uma página compacta do Diário de Notícias carioca, dia 15 de junho de 1958; redigido por um grupo acadêmico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro liderada pelo sociólogo José Artur Rios, foi contratado por João Portela Ribeiro Dantas, dono do jornal que o publicou com o título “A Revolução Brasileira”. Prevê a nacionalização das indústrias de base e das empresas de rádio e televisão; extinção do analfabetismo e educação de massas; reforma agrária; abertura comercial não-ideológica e expansão pacífica do poder nacional.
O Diário de Notícias era, então, uma empresa próspera, que ocupava edifício próprio de seis andares na Rua do Riachuelo, centro do Rio de Janeiro, capital da República. Matutino de maior circulação da cidade, com extensa base de leitores entre militares. João Dantas e a mãe, Ondina, o haviam herdado, em 1953, de Orlando Vilar Ribeiro Dantas, que o fundara em julho de 1930 como porta-voz do tenentismo. Logo após a Revolução de 1930, o jornal passara a opor-se ao governo de Getúlio Vargas e mantivera essa linha até a morte de Orlando, ou depois.
Esse conjunto de circunstâncias e o clima de esperança que marcou os anos do governo Kubitschek levaram João Dantas a um passo ousado: viajou a Bled, na Iugoslávia (hoje, Eslovênia) e lá se encontrou com Jânio Quadros, candidato à presidência da República. Juntos visitaram o Japão, a Índia, o Paquistão, o Irã, o Egito, Israel, Líbano e China. Falando à France Press, em Beiiing, como porta-voz de Jânio, Dantas defendeu o reconhecimento do regime de Mao Tsé Tung e o restabelecimento de relações com a Rússia. Celebrava-se o compromisso político.
Jânio era uma incógnita. Político performático popular em São Paulo, foi escolhido porque a União Democrática Nacional, dos bacharéis e militares americanófilos, não tinha candidato capaz de enfrentar o Marechal Henrique Dufles Teixeira Lott, oficial legalista, candidato da coligação PSD-PTB, oriunda ainda do governo Vargas. Para garantir-se, os estrategistas norte-americanos interessados no processo cuidaram de promover um ente subversivo, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), de Ivan Hasslocker, com recursos e know how bastantes para, manipulando a legislação eleitoral e dispondo de tecnologia avançada, eleger forte bancada parlamentar em 1960.
Tais senadores e deputados aceitaram de pronto o pedido de renúncia de Jânio quando este, constatando a inviabilidade de realizar seu programa de governo, tentou promover uma crise institucional que lhe devolvesse o poder, “nos braços do povo”; e também declararam vaga à presidência da República com João Goulart ainda no país, por ocasião do golpe de Estado de 1964. O Ibad foi dissolvido após comprovação da fraude, em 1963, não o congresso que resultou dela.
Jânio fundou a Eletrobras, o que Getúlio não conseguira fazer; condecorou Che Guevara e inaugurou a política externa independente e de abertura comercial sem restrições ideológicas; confrontou interesses da mídia e da oligarquia paulista. Essa linha de atuação política seria retomada por Ernesto Geisel, no apogeu e — certamente por causa disso — começo do fim do ciclo de governos militares.
Talvez se conhecessem melhor essa história e avaliassem a fragilidade da base de fatos por sob a retórica plantada que mantém afastados os dois nacionalismos brasileiros, os governos trabalhistas pós-2003 tivessem acuidade bastante para erguer as pontes necessárias e impedir que se armasse o acro de apoio ao atual processo, tanto de destruição da pátria quanto de agressão a quem trabalha.

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