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Opinião pública – o caminho (das pedras) dos livros

Escrevo, às vezes, aqui sobre discursos utilizados para o controle de opinião pública – e aparecem interessados no assunto. Para os muito interessados, eis um roteiro bibliográfico:
1. A base argumental das estratégias utilizadas até hoje são falácias retóricas e lógicas descritas na Antiguidade: os argumentos ad hominem, ad verecundiam, ad baculum, ad ignoriantiam etc.; ou construções tais como as em que se nega o antecedente de uma implicação para negar o consequente, violando o mecanismo do modus ponendo ponens, ou deduz da negação do consequente que o antecedente é falso, violando o modus tolendo tollens. Sobre esses temas, leitura didática e clara (embora voltada estritamente para o universo cultural norte-americano) está em Irving Copi, “Introdução à Lógica”, disponível grátis na web.
2. O quadro psicossocial depressivo e raivoso que se implantou na Europa na segunda metade do Século XIX, atribuído a prolongada recessão e que serviu de terreno para a implantação do fascismo é descrito em “A multidão criminosa” (“La folla delinquente”, 1891), de Scipio Sighelle e “Psicologia das multidões”, de Gustave Le Bon (“Psyhologie des foulles”, 1985), ambos igualmente disponíveis grátis em pdf.
3. A propaganda comunista obedece a normas clássicas (fixadas, por exemplo, congregação para propagação da fé – Propaganda Fidei -, fundada em 1622 pelo papa Gregório XV: sequência teoria-doutrina-normas-dísticos; tom apologético, apelo emocional fundamentado em verdade revelada.
4. Os textos básicos sobre a propaganda norte-americana são “Opinião Pública”, de Walter Lipmann (“Public Opinion”, 1922) e “Propaganda”, de Edward Bernays (“Propaganda!, 1928). O livro de Lipmann pode ser achado na web em pdf e o de Bernays em inglês, ou em espanhol, com o mesmo título.
Dentre os textos críticos a respeito, destacam-se “Manufacturing consent, the political economy of mass media” (“A fabricação do consenso” – ou “do consentimento”, de Noam Chomsky e Edward Herman, 1988): a edição original pode ser acessada via Google Play ou Amazon, ou encontrada, grátis, em pdf, em espanhol, via https://yadi.sk/i/cmXOdnY1tRjP8. Há muitas resenhas e artigos comentando o assunto, e um filme baseado nele, “Necessary Ilusions”, acessível grátis, no Youtube, com o título “Consenso fabricado” e legendas em português.
5. A propaganda nazista foi estudada, entre outros autores, por Jean-Marie Domenach, em “A propaganda política” (“La propagande politique”, 1951), disponível na web, e por Serge Tchakhotine, biólogo e discípulo de Pavlov, que a analisa aplicando a Teoria dos Reflexos, em “A mistificação das massas pela propaganda politica” (“Le viol des foulles para la propagadande politique”, 1938-1952), traduzido para o português por Miguel Arraes e disponível em pdf.
6. Os dois modelos – o alemão e o norte-americano, diferenciados pela natureza dos regimes políticos – tiveram percursos paralelos e contatos frequentes. Baseiam-se, ambos, na convicção expressa em termos filosóficos por Martin Heidegger (“Sobre a essência da verdade”, texto complexo de que há boa tradução na coleção “Os Pensadores”, da Editora Abril) de que alguns homens são capazes de, em lugar de adequar seus enunciados à realidade, como na definição platônica da verdade por Isaac Israeli (Século IX), adequar a realidade a seus enunciados.
7. Após a Segunda Guerra Mundial, conhecimentos operacionais da propaganda alemã incorporaram-se à gigantesca máquina de relações-públicas do Estados Unidos. Ela assumiria amplitude global; seria particularmente beneficiada com o desenvolvimento da estatística aplicada a monitoramento da opinião pública; o progresso das telecomunicações e a Internet, e a manipulação de dados comportamentais de grupos cada vez mais limitados de indivíduos..
8. Do ponto de vista da estruturação das mensagens, a contribuições contemporâneas mais importantes são estudos sobre as metáforas como estrutura básica da construção do léxico e, daí, para a percepção e raciocínio humano sobre a a realidade – em que se destacam textos de George Lakoff; a semiologia derivada, entre outros, de Roland Barthes (“Mitologias”, Mythologies, 1957, disponível na web em francês, português e outros idiomas); e os avanços no campo denominado “análise do discurso”, em que se desvelam mecanismos de construção da realidade em narrativas complexas (como coberturas jornalísticas sintéticas), área em que se destaca Teun Van Dijk.
Há fartura de estudos sobre isso na rede e alhures. Divirtam-se.

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