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O ódio instrumental e a ordem perfeita

A posse da terra continua sendo fonte primária de riqueza, mas os fisiocratas são raramente citados nos livros de Economia. O mercado segue regulando o preço das hortaliças, mas é um deus mamulengo que impérios de finanças manipulam. A indústria mostrou a Owen, a Marx e até a Leão XIII a luta de classes em forma explícita; as fábricas estão aí, cercadas de galpões e jardins, mas habitadas cada vez mais por robôs e comandadas por burocratas bancários.
Nos últimos dois séculos, a mais evidente fonte de riqueza tem sido a exploração do trabalho alheio, coisa que sempre houve mas adquiriu ritmo e se institucionalizou, concentrada, em sociedades dominantemente urbanas..
No entanto, para a gestão da economia, a realidade atual importa menos: como no tango, não se pode fazer qualquer movimento sem prever o próximo.
A automação dos sistemas, somada à inteligência artificial, muda algo essencial: máquinas não admitem mais valia. Fábricas automatizadas competindo umas com as outras tendem ao empate dos custos e à formação do lucro mínimo. E não só nelas, gente vem, há muito, perdendo importância: dispensa-se a lábia do vendedor se o pedido é feito online; a elegância do garçom no restaurante a quilo.
Com o fulcro da economia no comércio, retorna-se ao capitalismo mercantil, com sua fixação nas fontes de matéria-prima e em mercados cativos. O velho imperialismo retoma o tesão da adolescência com a esperteza da maturidade. Oligopólios se apropriam do que restava disponível na natureza, como a água.
A ênfase em uma só mercadoria, o dinheiro, de que todas as outras seriam materializações, aliena a gestão dos empreendimentos: já agora, uma empresa de mídia, por exemplo, não busca melhores roteiristas, editores ou assuntos, mas se entrega a gestores que provavelmente recuperaram, antes, uma fábrica de bolachas, um time de basquete ou uma igreja pentecostal. A identidade do produto e o perfil do consumidor valem cada vez menos.
O conhecimento – abstração, como o dinheiro – foi dos sábios, dos intelectuais, dos cientistas; passa a ser dos detentores de direitos e patentes, dos financiadores de laboratórios e centros de pesquisa de cuja produção se apropriam. Também aí, descartam-se os estados nacionais.
Será mais solitário o passageiro do automóvel sem motorista, dono da geladeira que encomenda o que falta ao mercado e do interfone que atende à portaria. Cada detentor privilegiado de um emprego encontratará quem lhe preste todos os serviços pessoais imagináveis, do coaching à doula, da coceira nas costas ao cafuné; pagará por minuto pelo calor humano – e, ainda assim, não haverá ocupação qu dê conta de todos os trabalhadores.
Questão premente, pois, é como descartar o excedente de mão de obra, inabilitado também para o consumo: sendo as guerras incontroláveis e perigosas, essa é uma das motivações do recente retorno aos palcos do discurso do fascismo, desprovido, embora, de pretensões épicas.
Não se prega o ódio por nostalgia ou por acaso. Ele não está a serviço de uma causa, é apenas instrumento. Visa um fim: os que vão sobreviver precisarão tolerar o descarte dos que não vão.
Se tudo no mundo é meio, caminha-se para um só fim: o oligopólio dos oligopólios, para onde fluirão riqueza e sabedoria, traduzidas em dígitos convencionais – isto é, que, fora da convenção, nada representam. Em dígitos se consumará a noção de “ser”: a essência de tudo que existe, o ente universal da nova escolástica.
Nesse futuro projetado, falecerão as falcatruas que permitem aos espertos prosperar, movem práticas de negócios e alimentam sonhos da classe média. Imaginem um sistema de trânsito sem regras a discutir, carteiras de habilitação, multas ou falhas humanas: notem que pendência pouca haverá em cartórios eletrônicos regidos por algoritmos legais não ambíguos, ou nos operadores inteligentes de diagnóstico que processem anamneses clínicas.
Daí, também, que nesse mundo haverá pouquíssimos sujeitos ricos.
É projeto tão absurdo que provavelmente não conseguirão fazer acontecer. Ou, talvez já esteja acontecendo.

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