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O ensino da razão e a multidão emotiva

Os modernos mecanismos de controle de opinião – acionados, agora, em escala global dada a inviabilidade da guerra definitiva, nuclear ou biológica – derivam de artifícios lógicos e retóricos descritos desde a Antiguidade. As falácias formais e não formais, junto com o conhecimento íntimo da sintaxe da linguagem e da lógica aristotélica, eram, já no Império Romano, parte da formação dos indivíduos cultos.
Línguas e matemática – significados e valores – são o diferencial da espécie humana; através delas, as sociedades representam o mundo real, planejam sua atuação sobre ele, extraem da experiência culturas específicas. Não podem se dissociar em uma formação básica integral; merecem ser o instrumento de sublimação, filtragem ou contenção de impulsos instintivos.
Essa visão holística preservou-se na Europa após o Renascimento, restrita a poucos – uma espécie de repertório comum indispensável como suporte às várias especialidades que se diversificaram nas ciências e nas artes; seria abandonada, em poucas décadas, com a Revolução Industrial, quando o ensino se ampliou para incluir as classes populares.
Da mesma forma que ao vendedor de salsichas não interessa informar como elas são feitas, não convém à classe dominante que as pessoas saibam o material de que são tecidos seus discursos de comando; ela obtém melhores resultados imediatos com menos ruído segmentando prematuramente teoria e método em pedaços menores que sustentem práticas particulares.
Isso afeta todo ensino universitário, em graduação e pós-graduação, e é gritante em escolas de Direito, Medicina ou Economia – a formação de particularistas cada vez mais proficientes em campos de atividade cada vez mais restritos.
Há muito os engenheiros que lidam com gestão de sistemas e pessoas perceberam isso, mas não encontraram meios de reverter uma tendência que atende aos interesses políticos dominantes, ao pragmatismo dos sistemas produtivos e ao objetivo imediato das pessoas com vistas à própria sobrevivência e prosperidade.
A visão de conjunto – que, por exemplo, levou cientistas como Einstein a protelar até o limite a transferência aos militares da tecnologia nuclear pelo temor do uso irrefletido – é rara. Predomina a sensação de descompromisso de cada indivíduo com o produto final de sua atividade – o que se chama de alienação – e o culto da obediência, em personalidades de frieza burocrática, como Hanna Arendt percebeu no julgamento de chefes nazista, no Tribunal de Nuremberg.
Toda essa argumentação vem a propósito do ensino básico. Trata-se de formar no discente, desde o princípio, a consciência do todo e de cultivar a capacidade de argumentar com proficiência, não em defesa de pontos de vista predeterminados e inflexíveis, mas em busca da verdade que não está, necessariamente – e, no mais das vezes, não está mesmo – nos discursos dominantes, sobretudo naqueles em que se nota grande investimento de fonte e origem não identificada.
A solução mais pertinente à demanda atual é o cultivo da tolerância, do diálogo, da razão e das regras de convívio; a desconfiança, a busca de provas, fontes e arrazoados. As pessoas precisam aprender a conversar para entender não só o que se diz, mas as motivações de quem diz e, a partir daí, construir pontes em busca da verdade; resistir ao apelo emocional da propaganda. A partir do momento em que as crianças têm acesso ao pensamento abstrato, é importante que debatam as questões gerais da sociedade, busquem dados particulares, divirjam e aprendam a dialogar.
Fala-se muito, hoje, em notícias falsas – “fake news”. No entanto, elas regem do mundo há muito tempo, induzindo camponeses a deixar suas propriedades para a longa viagem das cruzadas em busca do Santo Graal – que não existia; prometendo o eldorado no “Novo Continente”; afirmando a superioridade dos brancos europeus pela razão de serem mais ferozes, ousados ou ambiciosos; especificando conceitos abstratos como democracia ou verdade para significar determinadas formas de estado ou conceitos indemonstráveis; impondo a obediência a formas de comportamento social obsoletas etc.
“Fake news” prosperam porque atendem a expectativas sociais difusas ou causam escândalo. Na essência, são discursos emocionais; daí a dificuldade de desmenti-las, por absurdas que sejam, com a mera exposição de sua falsidade.

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