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O Brasil, no Ano Zero

Não que nos falte história; ela existe, confunde e comove os que a conhecem.
No Império, os objetivos eram manter a unidade nacional e definir fronteiras. O primeiro foi atingido a ferro e fogo; o segundo, completou-se, já na República, quando, em 1903, incororou-se ao Brasil o território do Acre.
O êxito não foi o mesmo com os grandes problemas sociais. A lei abolindo a escravatura, de 1888, não só não deu solução ao impasse definido sete décadas antes por José Bonifácio – o que fazer dos escravos libertos – quanto custou a coroa ao imperador, em um golpe prematuro e impopular. A questão indígena – não dos índios incorporados à sociedade, mas também dos que permaneceram em suas culturas origiárias – ficou para a República.
Nenhum desses impasses foi resolvido: hoje há, provavelmente, em proporção, menos negros na elite brasileira do que havia nos anos finais do império. O caminho de una solução respeitosa para a questão dos grupos indígenas, aberto por Cândido Rondon, permanece mal trilhado e ameaçado.
A República Velha deu poder ao cancro das oligarquias, que agora voltam à cena com suas duas faces – a da gestão corrupta e a do simulacro formal de democracia; permitiu a estratificação da sociedade com a exclusão dos remanescentes da escravidão, de multidão de mestiços e imigrantes pobres.
Objetivos nacionais começaram a ser redefinidos mais tarde: a construção de um arcabouço legal que absorvesse os conflitos de classe e a educação das massas para o trabalho assalariado marcou os anos 30 e 40. O desenvolvimento industrial por via do domínio da siderurgia e da tecnologia de obras de infraestrutura; da disponibilidade de energia elétrica e fóssil; e do desenvolvimento cultural e científico marcou os governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Textos importantes dessa época repensaram e definiram o Brasil.
Coube a Jânio Quadros, em seu breve governo, adotar a política externa independente, que seria seguida por João Goulart e, a partir de Ernesto Geisel, por todos os governos, até 2016. Nos anos de regime militar, ocorreu a revolução tecnológica na agricultura, que abriu o caminnho para a potência agropecuária em que o Brasil se tornou, e se pretendeu, sem êxito, o desenvolvimento autônomo nos campos da energia nuclear e da informática.
Após o apagão neoliberal dos anos 80 e 90, o projeto nacional retornou, com maior complexidade, nos governos trabalhistas após 2003 – Lula e Dilma – e eclipsou-se agora.
O Brasil não tem mais, agora, projeto próprio de nação – é peça em projeto alheio.
Certo dos tempos difíceis que virão, o povo mais pobre concentra-se em sobreviver e as classes médias se entregam a paixões de consumo e a delírios místicos. A elite real do país – a que tem algo a dizer em coisas do engenho, do espírito e da inteligência – divide-se entre os que se dispõem a começar tudo de novo, como no encontro dos povos na praia baiana, há 517 anos, e os que buscam lugar no mundo que os abrigue.

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