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O apocalipse, o laudo e as planilhas

“A Terra é Azul”, disse Yuri, o primeiro homem que a viu.
Penso nos imensos espaços e nos mares salgados que cobrem três quartos do solo – sopa de plâncton com centenas de metros de profundidade; desconto desertos, matas fechadas, cordilheiras íngremes, superfícies de gelo que se espalham, extensas, em torno dos polos.
Os homens vivem no que resta disso aí, espremidos aos bilhões da maneira mais irracional possível.
Por isso é tão surpreendente a notícia de que a fumaça de suas chaminés — que parecem miniaturas de brinquedo – e a descarga de seus carrinhos– que correm de um lado para o outro como pulgas ensandecidas –, ameacem o equilíbrio monumental desse imenso ecossistema.
Quem é o vetor de tal despautério?
Mostram-me a fumaça marrom – a cor de todos os preconceitos – e acusam o CO2. No entanto, o CO2 que conheço bem, porque o sopro todo tempo, não tem cor nem cheiro e é o elo indispensável no ciclo da vida. Estou disposto a assinar qualquer manifesto em apoio a esse companheiro, a quem acusam de crimes hediondos por delação maldosa, coisa típica de nosso tempo. Essa é, ´pelo menos, no momento, a “verdade científica”.
Está certo que a Terra esquente: devem ter bons termômetros. Ela já esfriou e esquentou tantas vezes, quando não havia fábricas, nem cidades, nem homens! A questão é a relação causal, única, decisiva, entre a revolução industrial e o aquecimento da Terra. Mais que isso, a certeza de que esse aquecimento crescerá linearmente ao apocalipse.
A poluição é um horror nas sociedades humanas; será no todo? E que nos faz supor a linearidade em qualquer processo natural?
Li tudo que pude encontrar sobre isso. Nada que possa ser explicado em linguagem de gente a um sujeito como eu, que estudou a vida inteira as coisas mais esotéricas e aprendeu que a grande sabedoria está em desconfiar.
Sábio foi aquele que desconfiou da história do Santo Graal levado pelos mouros e da necessidade de recuperá-lo; dos rios de ouro que corriam dos Andes; da superioridade da raça branca europeia, comprovada em milhares de páginas de palavras de ciência; da distribuição equânime da riqueza e da felicidade com a globalização; do risco de câncer no ciclamato de sódio e da superioridade da margarina sobre a manteiga.
Certa vez, moderando como convidado alheio ao assunto um debate em um programa de pós-graduação em biotecnologia, presentes notáveis cientistas, dei a palavra a uma autoridade nativa. O energúmeno projetou na tela a imagem de um animal em agonia e proclamou: “Os transgênicos ameaçam o mundo com o mal da vaca louca”. O PHD inglês cutucou o chinês a seu lado e olhou em assombro para o estagiário que fazia as vezes de tradutor simultâneo, porque a verba era pouca. “O que fazer”?. Perguntava-me, com os olhos, o rapaz.
O que escrevi acima é um ato de coragem. Dou a cara a tapa. Como o empresário a quem o auditor anuncia a falência com a carteira de encomendas repleta e a linha de montagem a todo vapor, exijo: “Não me interessa o laudo. Quero ver as planilhas!”

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