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Nosso mundo, nós criamos

Junte muitos cabos elétricos finíssimos, aperte uns contra os outros até formarem um objeto compacto com quilo e meio de massa: terá visão esquemática do que é o cérebro humano. Nele, por fios biológicos correspondentes a esses (os neurônios), viajam pulsos elétricos de baixa intensidade e ritmo monótono; unem-se em mais de 85 bilhões de conexões (as sinapses), cada uma dos quais analisa os impulsos que chegam, deixa passar ou não, conforme decisões tomadas por via de estimulantes e inibidores químicos.
Formam-se lampejos como raios, incessantes, de milissegundos, varando essa rede em percursos lineares, planos, tridimensionais – e para além do que podemos representar (as do volume e o tempo), com as dimensões suplementares decorrentes do modelo quântico, estimadas em sete pela Teoria-M (1995) – uma ampliação da Teoria das Cordas. O espaço virtual do cérebro, por isso, é muito maior que o que percebemos; diz-se que é enorme, isto é, expansível ao extremo.
Os caminhos percorridos pelos estímulos deixam rastros que facilitam o acesso e constituem a memória.
Aí se constrói o que, para nós, é a realidade. Produzem-se e guardam-se nossos pensamentos. É nossa casa: moramos nele. Somos, portanto, softwares – dependentes, é claro, do fornecimento de energia (a glicose), dos periféricos que nos informam do entorno; da homeostase da máquina biológica que nos viabiliza.
Mas nossa verdadeira essência, o que desaparece quando falecemos e, pelo menos em nossa consoladora imaginação, persiste em nuvem, é tão inconsistente quanto o conteúdo digital deste texto. Algo que os antigos chamavam de alma, anima, sopro, alento, porque o ar, o gás, é o mais imaterial dos materiais.
A sociedade, o mundo, o passado e o futuro são, para nós, as representações que forjamos de um real, no todo, inacessível. Vemos a radiação da luz, não percebemos as outras; ouvimos os sons, não os ultra e infrassons. O universo seria, para nós, inteiramente diferente se tivéssemos o tamanho de uma ameba ou boiássemos em um oceano; se nossa vida durasse uma semana ou dois mil anos; se o tempo nos fosse espaço e o espaço, tempo.
Os estudos do software humano incluem, sobre a base dos reflexos neurais, a invenção coletiva das linguagens – signos, funções, símbolos, sintaxe, metro –, os diferentes estratos que condicionam a vontade, o desejo, o medo, o amor, a fúria, a beleza. Os limites da razão, a incerteza, a desmedida. Poemas, ensaios, teoremas, narrativas.
Seria de imaginar que a sociedade, para conformar os homens a seus padrões, mergulhasse em tais conceitos complicados da mente e de seu hardware, o cérebro.
Nada disso; criam-se os homens como se domam cavalos, com afago, alfafa, paciência e chicote, o que deixa marcas variadas, tanto quanto variam as dosagens. O animal humano é forçado a enquadrar-se nas normas sociais desde pequeno e dependente; depois, quando acha que tem livre arbítrio, compelido pelas diretrizes da família, do emprego, do empréstimo, do dever, do compromisso, do acasalamento, da lei; se tem sorte, alia-se a algum sonho ou projeto com o qual dá sentido, para ele e os outros, à sua vida.
É simples assim. Pode ser frustrante e, portanto, triste, mas a tristeza também é uma ilusão humana, que se aplica, escreveu Carlos Drummond de Andrade na Rosa do Povo, às coisas vistas sem ênfase.

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