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Nós e os estados nacionais

A ofensiva em curso contra os Estados e as instituições que os congregam – ONU, União Europeia, Mercosul etc. – tem implicações mais graves do que se pensa.
As nações como entendemos hoje – organizações estáveis, definidas por território, população, regime político e passado histórico – são relativamente recentes. O conceito moderno de Estado formou-se no Renascimento europeu e tem por base uma adaptação da estrutura de poder do Império Romano; com os estados modernos, fixaram-se as línguas e as culturas eruditas nacionais.
Na América, a independência das nações data de dois séculos; na Ásia, elas recuperaram a autonomia há poucas décadas; na África, mal se implantaram ainda, em fronteiras arbitrariamente definidas pelos colonizadores.
A consolidação dos estados é também a consolidação da cidadania. São eles que registram – não mais a Igreja, como na Europa medieval – a identidade dos cidadãos, garantem seus direitos, validam sua formação, regem sua vida civil. Sem eles, as pessoas serão menos do que imigrantes porque não terão, sequer, a memória de uma pátria.
A perspectiva de esmaecimento e eliminação do conceito de Estado coincide com o avanço de uma transformação cultural que, em vários aspectos, retoma o clima ideológico da Idade Média: medo, incerteza e insegurança; procura de um poder que ordene a experiência. Relativizam-se os conhecimentos das ciências da natureza e põem-se em dúvida suas constatações mais triviais — da esfericidade da Terra à historicidade da criação do Universo – em favor de meras hipóteses promovidas com recursos de marketing ou crenças de passado milenar que renascem, de repente, em grupos de maior escolaridade.
Por toda parte surgem buscadores da verdade, como os personagens da Satiricon, sátira de Petrônio a um mundo sem referências e limites. As opiniões desligam-se da experiência e a proposições mais absurdas podem ser aceitas e validadas de imediato. Certo é o que é raro – e logo se tornará comum, porque será moda. Não há realidade: há símbolos: pastoreiam-se, assim, povos como rebanhos.
Também não por acaso, a riqueza já não se mede pelo que se produz ou transporta: há muito mais dinheiro do que mercadoria que possa comprar ou caminhos a percorrer. Tende-se para um estágio em que nenhum trabalho agregado a um bem da natureza terá valor, senão pelo que possa simbolizar. Há extrema irrealização e idealização das coisas, embora continuem faltando, concretamente, à maior parte da humanidade.
Quando a economia real é controlada pela abstração de dígitos implantados em computadores – e derivativos projetados sobre esses dígitos –. e as empresas são administradas por especialistas em investimentos, não por gerentes, é claro que o mundo em que vivemos e as instituições que nos dão sentido estão sob ameaça.
Isso me leva a crer que a grande força restauradora da normalidade deverá ser uma fusão dos interesses dos herdeiros da sociedade industrial em extinção com a campanha pela sobrevivência dos Estados em que se confinaram as lutas de classes. Sem Estado, nem democracia nem liberdade significam coisa alguma.

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