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Militares e inteligência

Não sei por que chamam a espionagem militar de “inteligência”.
Não que a coleta de informações de fontes públicas e sua complementação menos confiável seja ineficiente. Pelo contrário: militares são geralmente bem informados.
O problema é que não tiram as melhores conclusões das informações que têm.
Vejamos: a guerra é a menos inteligente das soluções; armar exércitos justifica-se, no lema clássico, para evitar que elas aconteçam. Superada a mística dos uniformes, a adrelanina das paradas e a exaltação do heroísmo sem causa – tudo isso, na verdade, propaganda enganosa – militares deveriam ser as criaturas mais pacifistas, porque têm melhores condições do que os demais de saber das desgraças que as guerras causam e do pouco que importam na História: não é fatp, agora mesmo, que o fascismo renasce na Europa (não só lá)? E e o patriarca de Moscou não celebra ante Vladimir Putin, ex-KGB?
Se inevitáveis, guerras devem ser rápidas, eficientes e concluídas com sólidos acordos de paz – não “cessação de combates”, como os americanos entendem “peace”, mas no sentido russo de “luz” e “mundo”, ou no entendimento chinês de “destino humano comum”. Em suma, com o mínimo possível de ressentimentos.
Guerras conduzidas com inteligência não podem demorar décadas, como no Afeganistão ou na Síria, nem levar a derrota o exército mais forte, como no Vietnan. Não deixam mágoas tamanhas, como no Iraque, nem terra arrasada, como na Líbia, ou, no caso de guerras de infiltração, desastres humanitários, como os que se preveem para o Brasil, em futuro próximo.
As guerras mundiais do século XX – as quentes e a fria – (na verdade, outras mais antigas, a dos 30 anos, a dos cem anos, as em Cartago, do Peloponeso) foram, na verdade, conflitos políticos entremeados de ações militares, precedidas e, eventualmente, substituídas por demonstrações de força. Nessa perspectiva, a operação comandada por Rommel no Norte da África, foi uma guerra à parte, abortada por desdém (acho que o Reich fazia pouco dos Estados Unidos, que estariam ameaçados em seu território caso os alemães chegassem a Dacar), tanto quanto a Operação Barbarossa, a invasão alemã da Rússia, temerária em si, iria frustrar-se mais rapidamente por obstinação insensata.
Eis a chave da inteligência: a guerra é um momento da política e toda ação militar é essencialmente uma ação política, isto é, algo apoiado em interesses econômicos, fantasiado com discursos retóricos e conduzido pela máquina do Estado, cujo compromisso é com a Nação e com o povo.
Modelos de gestão podem ser equivalentes e categorias dadas por exclusivas podem se compor, como no socialismo democrático nórdico europeu ou no capitalismo contido pelo domínio do Partido Comunista, na China. Há um mundo de possibilidades em aberto, e a escolha se faz pela aceitação e a oportunidade. O sectarismo é antiprofissional.
Os exércitos latino-americanos caíram, por essa via, em uma armadilha ideológica que, omitindo a escolha – portanto, a condição de sujeito – subordina a ação militar a pressupostos arbitrários. Isso explica poque nossos militares não dialogam; têm o comportamento condicionado, em última instância, como o das moscas de Watson.
Militares sujeitos a tais restrições são personas dramáticas. Penso na evolução ideológica de um rígido Ernesto Geisel; ou, antes, em um mais maleável Castelo Branco. Alinhado com grupos de intelectuais conservadores, tinha um projeto para o país e, já em setembro de 1964, traçava metas, em carta a seu colega Hélio Ibiapina: “assegurar o funcionamento do Congresso, a coexistência com o Executivo e o Judiciário, garantir o processamento eleitoral, as eleições e a posse do eleito para 31 de janeiro de 1966”. Não cumpriu nenhuma delas e morreu em um conveniente desastre de avião, em 1967, antes de explicar exatamente porque.

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