Home Colunistas Em geral É só uma convulsão – 
e voltamos ao passado

É só uma convulsão – 
e voltamos ao passado

Outro dia escrevi, em comentário de rede social sobre o Ministro da Ciência e Tecnologia, que “astronautas pairam acima dos nefelibatas” – e, como sempre acontece quando faço chistes baseados em ambiguidade, lembrei-me de tio José: a literalidade é viés típico dos esquizofrênicos e tio José era um deles.
Internado no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, anos 50, aos cuidados da Doutora Nice da Silveira, humanismo e competência personificados, progredia em seus desenhos, era feliz como nunca e quase sempre lúcido. Mas a família preferiu transferi-lo para um inferno privado, a Casa de Saúde Doutor Eiras
Quando titio morreu – e ninguém mais, garantida a pensão por morte, cuidava dele – coube a mim vestir o corpo: pude, então, constatar o afundamento do crânio na têmpora esquerda, com extrusão de massa encefálica. Fora espancado – e, nas circunstâncias eu, um menino que estudava medicina, nada pude fazer.
Por essa época, visitei manicômios, “emblemas das relações de violência, segregação, massificação e discriminação social”, como os define artigo publicado em 2009 na Revista Brasileira de Saúde Mental; aprendi, então, sobre a fragilidade e os limites da condição humana. Vendo aquelas não-pessoas resmungando, trêmulas, compostas ou seminuas, a maioria calada e apática – afora a velhinha que soprou ao meu ouvido “Quer namorar?”–, não havia como não perguntar quem ali, de fato, era louco e, dentre os loucos, qual seria o Van Gogh, o Nietzsche, o Lima Barreto.
A terapia clássica conduzia a duas soluções universais, além do lítio, para doenças mentais: a lobotomia, que rendeu o Prêmio Nobel de Medicina ao português Egas Moniz, em 1949, já quando se discutia a brutalidade dos experimentos com seres humanos promovidos na Alemanha nazista, mas não só lá; e os choques elétricos, sucessores de técnicas que incluíam a injeção de substâncias, como cânfora, e a hipoglicemia provocada. Na prática, a pessoa recebia uma descarga no crânio bastante forte para provocar convulsões – e isso lhe faria bem, embora o corpo dolorido, algum osso quebrado e eventual perda temporária de memória.
Os eletrochoques jamais deixaram de ser aplicados; apenas sua agressividade foi controlada pelo uso de anestesia, relaxante muscular e condições ambulatoriais: com isso, perderam a pecha de castigo. Rebatizados de convulsoterapia, têm resultados clínicos considerados excelentes em casos depressão extrema, dita “severa”, e os aplicam, com portfólio mais modesto, a outras patologias – espera-se que graves.
A “nova imagem” do instrumento de tortura psiquiátrica associado aos manicômios vem sendo agora utilizada em campanha de relações-públicas por interessados em restabelecer a política de internação e isolamento dos pacientes – presumivelmente empresários do ramo que pretendem embolsar verbas estatais. O volume de recursos aplicado mede-se pela penetração na esfera de governo, amplitude da divulgação e mobilização, até agora, de quase 300 congressistas para a constituição de uma frente parlamentar. O esforço reflete também, a reação corporativa de médicos à migração de pacientes para várias formas de atendimento ambulatorial e interdisciplinar, e se apoia no horror popular à loucura, que a socialização desses pacientes ressuscitou.
Há, no entanto, temores fundados em conjecturas de outra natureza.
A doença mental despersonaliza o paciente: qualquer protesto de loucos é uma prova a mais de sua loucura; poucos os visitam ou defendem seus interesses.
Manicômios sempre foram lugares onde se guardam opositores políticos, pensadores desviantes, artistas criativos, jovens rebeldes, gente rica tutelada por parentes poderosos, indivíduos escolhidos em famílias problemáticas para exorcizar a patologia do grupo. Governos autoritários costumam aparelhá-los
No plano político, o retrocesso que se anuncia no Brasil – a essa altura, já em documento do Ministério da Saúde – tende a desmontar uma promissora e muito menos cara estrutura de atendimento ambulatorial, a dos centros de atendimento psicossocial, que busca, junto da recuperação, a incorporação de doentes à sociedade. É, em particular, o caso de drogados e de crianças (autistas, com doença de Down etc,) – algumas das quais vi superar-se e alcançar a etapa do ensino superior.
Dá pena.

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