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De drogas, acordos e raízes

Vários fatores explicam a progressão do tráfico no Brasil no sentido de drogas mais caras. A concentração da riqueza aumentou a clientela, que se diversifica entre a cocaína, o básico, a compostos químicos sintéticos ou derivados do ópio. A ampliação do cativeiro social, com a queda da economia e, agora, o desprestígio do trabalho regular, faz crescer o exército dos pequenos traficantes que operam o varejo do negócio.
Não é comum abordar-se o tráfico como atividade econômica que abrange todas as camadas sociais; no entanto, sintéticos e opiáceos chegam e se distribuem via canais geralmente discretos e bem-postos na sociedade. A repressão concentra-se no transporte e distribuição de maconha e cocaína e ao mercado paralelo de armas, vinculados ambos a organizações criminosas em permanente negociação com autoridades policiais, judiciárias e políticas.
A principal dessas entidades é o Primeiro Comando da Capital, cuja área primária de atuação fica no Estado de São Paulo. Lá, depois de períodos de confronto e tréguas temporárias, firmou-se, em 2006, acordo entre a cúpula da organização criminosa, e o governo de São Paulo, na época liderado por Geraldo Alckmin, também governador atual.
O PCC cumpriu o trato, passou a respeitar os perímetros urbanos mais visíveis e a cooperar com o combate a criminosos free lancers ou ocasionais. Funciona assim em toda parte: ainda há dias, na favela da Vila |Vintém, um rapaz de 18 anos atirou e matou a namorada grávida, de 21. Questionado, confessou a crime aos traficantes do lugar que, segundo ele contou na delegacia, mandaram-no entregar-se à polícia.
A relativa paz em São Paulo é ainda guarnecida pela discrição da mídia, que procura manter o noticiário restrito às páginas e programas “de polícia” na televisão; isso converge com a conveniência do governo estadual, ocupado há 20 anos pela oligarquia que tradicionalmente comanda o estado.
O atual esforço do PCC para implantar-se como poder criminal único no Rio de Janeiro e em outros estados – particularmente no Norte e Nordeste – não deve ser desconectado, então, do atual momento político e da oportunidade que ele oferece à oligarquia paulista e seus associados multinacionais.
A rota tradicional da cocaína – visando também à exportação pelos portos do Sul-Sudeste –, passa pelas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia e percorre largo corredor que atravessa Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, por terra ou pelo ar, geralmente em aviões menores. Nessa área, há aeroportos, depósitos e autoridades locais de todo nível cooptadas.
Nos últimos anos, com a repressão maior no Caribe e contextos políticos internos na Colômbia, a produção colombiana vem-se escoando para o Brasil e, com ela, compostos mais concentrados, ao gosto dos aficionados do Primeiro Mundo. As rotas de tráfico deslocaram-se, assim, para a Amazônia, onde batalhões de selva do Exército têm apreendido carregamentos valiosos.
Basta olhar o mapa para constatar que o controle tornou-se ainda mais difícil.
Já o combate ao tráfico no varejo dos morros do Rio ou na periferia de cidades concentradas equivale à poda de árvores frondosas: só se estimula o surgimento de novos ramos. A raiz dessa árvore está plantada no grande capital e é, pois, inalcançável.

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