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As redes sociais do atraso

Certa vez, década de 1960, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (ou a Universidade do Brasil; o nome mudou em 1965) publicou listagem de seus professores por ordem alfabética do sobrenome. Percebi, então, num relance, que a elite brasileira se constitui a partir de redes familiares de benefício mútuo: uns poucos sobrenomes e ocupava colunas seguidas.
A natureza tribal manifesta-se em todas as instâncias de poder, assegurada pela preparação privilegiada e colocação arranjada dos herdeiros, que formam dinastias em carreiras públicas; compadrio e nepotismo cruzado; barreiras criadas para impedir a ascensão de concorrentes.
A ocupação de espaços exclusivos, coisa própria da nobreza, ganhou ímpeto, contraditoriamente, na Velha República, cuja implantação articulou interesses de donos de terras, especuladores financeiros e militares de viés positivista, gananciosos de poder.
Negros e mulatos livres representavam 42,7 por cento da população (a que se somavam os escravos, 15,2 por cento), no censo de 1872: sua influência na administração do país, no reinado de Pedro II, refletia esse número. Pontificavam como jornalistas, escritores, juristas, professores, políticos, engenheiros; integrados em lojas maçônicas, clubes abolicionistas e grêmios culturais. Nos salões da corte ouviam-se as primeiras composições eruditas sobre temas afro-brasileiros, peças para piano de Alberto Nepomuceno.
A presença de tão inusitado (na época) contingente de negros e mestiços na esfera de poder e a idealização romântica dos índios eram, àquela altura, traços associados ao atraso do país: até hoje, a constituição dos núcleos oligárquicos reflete mais a gigantesca campanha global do “embranquecimento” das décadas posteriores a 1850, do que o antigo patronato rural do café e da cana-de-açúcar, representado simbolicamente em organizações como a Tradição, Família e Propriedade, partidos monárquicos e paulistas de 400 anos.
Foi na segunda metade do Século XIX que a Inglaterra consolidou sua hegemonia sobre a Europa Continental e iniciou a promoção da diáspora europeia, concebida para conter os movimentos sociais que reagiam à Revolução Industrial: além de acenar com o paraíso aos emigrantes, prometia-se progresso às populações que iriam recebê-los, na América, Ásia e África.
A “superioridade branca” tornou-se verdade científica a que deviam se conformar nações periféricos como o Brasil, a exemplo dos Estados Unidos: só a imigração de europeus permitiria “aprimorar a raça” e criar condições biológicas para a competição no mundo civilizado. A doutrina era sustentada por cientistas como Ernst Haeckel, divulgador da obra de Charles Darwin, o exemplar de um denso livro dele traduzido para o português e editado em 1931– “História da Criação Natural” – registrava tiragem acumulada de mais de três milhões de exemplares: os “negroides” eram, ali, associados a macacos, com base em afirmações sobre anatomia comparada (algumas ilustrações, descobriu-se, convenientemente retocadas) e metáforas de darwinismo social.
Levas de imigrantes europeus foram recebidos com generalizada cordialidade no Brasil e rapidamente incorporados às tradicionais redes locais que exercem o poder real. A distinção que demarca essa classe dominante autodeclarada jamais chegou, no entanto, a ser expressamente étnica: conforme o caso, exclui nordestinos (“baianos”), gente do meio rural (“jeca tatus”, caipiras), suburbanos — qualquer grupo que pareça ameaçador. Traços distintivos podem ser o sotaque, os gestos. A escolha de palavras e trajes: o preconceito disfarça-se, mas é intenso e impeditivo.
Não se trata de classe tipicamente constituída, mas de segmentos dinâmicos estruturados em rede que, em autodefesa, combatem legislações que democratizem o acesso aos cargos públicos, habilitem a profissões valorizadas e, em linhas gerais, garantam ascensão social. Esse viés os levou a se opor ao trabalhismo de Getúlio Vargas (ele mesmo estancieiro de uma região em que prevalecia a chefia de liderança, fundada na lealdade e apoio recíproco), a qualquer tipo de movimento sindical ou concessão à classe trabalhadora (mesmo nos regimes militares), à distribuição de terras e cooperativismo rural e a partidos políticos fora de seu controle
O desenvolvimento industrial e a urbanização do Brasil acentuaram progressivamente o anacronismo e a mediocridade dessas estruturas de poder e as empurraram para o sectarismo e a rejeição do conhecimento – o neofasicmo, o necolonialismo e o terraplanismo.

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