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As raízes do racismo no Brasil

A contradição entre casa grande e senzala representou bem a luta de classes ao longo do ciclo da cana-de-açúcar, que se estendeu pelo litoral; e, em menor escala, sobretudo no Sul fluminense, em plantações de café. Mas não é essa a história dos desencontros raciais na maior parte do Brasil. Para começar, não na vastidão da Amazônia e na esparsa ocupação histórica do Centro-Oeste.
No Nordeste, entre Maranhão e Bahia, no sertão e Zona da Mata, a mão de obra escrava conviveu e foi substituída pela abundante oferta do trabalho “livre” dos descendentes de indígenas. São em geral dessa a origem dois tipos regionais, o vaqueiro do subciclo do gado, que se estende pelas gerais, e o jangadeiro do litoral.
No Ceará, que, na segunda metade do Século XIX, vivia a prosperidade do subciclo do algodão do Seridó, a escravatura foi abolida quatro anos antes da Lei Áurea, por força de movimento liderado pelo jangadeiro Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar.
Na Bahia, em parte graças à migração de pessoas da cultura iorubá, o conflito étnico apresentou nuances peculiares e a matriz africana se impôs, em forma explícita ou sincrética.
Em Minas Gerais, no ciclo dos minérios, a urbanização colocou em relação próxima o colonizador europeu – no caso típico, comerciante ou funcionário de confiança do reino de Portugal, vindo só e para longa permanência –, com numerosos contingentes de africanos e indígenas. A tensão nas relações étnicas assumiu formas contraditórias. Na vila do Tijuco, escreve Júnia Ferreira Furtado em seu “Chica da Silva e o contratador de diamantes”, todas as damas das casas de grossas paredes eram negras. Das trocas culturais e contatos humanos então havidos resultou a expressão artística original do barroco mineiro.
No extremo Sul, no pampa, uma cultura diferenciada – na qual se gestou a figura política de Getúlio Vargas –, o subciclo do charque, plantou estâncias obrigadas à autodefesa, no contexto de contínua luta nacionalista. Em cada uma dessas unidades, os peões, de origem dominantemente indígena, tinham o patrão por líder a que prestavam integral fidelidade e com que contavam certamente para apoio e providência.
Também complexa foi a socialização na periferia de cidades como a capital, o Rio de Janeiro, onde a convivência de etnias e costumes sempre espantou visitantes europeus. A mulata dos sambas e dos poemas – carinhosa mulher, amante desejada e caprichosa, mãe de seus filhos e dos filhos das outras, quituteira e doceira – em nada se parece com a imagem desumanizada com que a representam.
É uma distorção buscar no passado remoto ou na colonização portuguesa raízes exclusivas do racismo contemporâneo no Brasil. É bem melhor atribuir sua progressão à pesada propaganda pelo “branqueamento” que acompanhou a diáspora eoropeia – portanto, a migração de grandes contingentes para o Brasil, a partir de 1850 – e à presença dominante da sociologia norte-americana, nas universidades, escolas e na mídia, a partir da Segunda Guerra Mundial.
Pesquisa simples de origens familiares revelará que os núcleos racistas correspondem, na maior parte, a guetos coloniais mal assimilados nos últimos 150 anos; e que a extensão da qualificação “negro” à variada coleção dos não-brancos no Brasil amplia o engajamento em campanhas raciais copiadas dos Estados Unidos — que, exterminou quase toda população nativa em sucessivas “guerras”, no Século XIX, e, até a década de 1960, mantinha o apartheid da população negra.
Não é exatamente o caso deste outro país onde, em plena escravidão (e não há escravidão boa em parte alguma), segmento destacado da elite cultural era mestiça de variado colorido – e continua sendo até hoje, embora às vezes disfarce, envergonhada de ser o que, de fato, somos, na etnia ou na cultura.

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