Home Colunistas Em geral Amazônia: ninguém devasta aquilo que preza

Amazônia: ninguém devasta aquilo que preza

O Brasil herdou a Amazônia do período colonial, deixou que a invadissem como fungos ao queijo e está em vias de perdê-la. Queimar florestas é o que poderia fazer de mais errado nessa contingência.
Trata-se de intervir em um ecossistema complexo e diferenciado para suprir a demanda tardia de novo ciclo econômico colonial em nossa História – e arcar com os riscos.
Se o ciclo da cana-de-açúcar nos legou o mais cruel estereótipo da escravidão – a distância abissal entre a casa grande e a senzala – e o ciclo do café propício a aliança do latifúndio dependente com o fascismo importado, o ciclo do boi e da soja pode ser ainda mais destrutivo.
Não há razão para crer que a floresta amazônica seja “o pulmão da Terra” ou coisa parecida. Quanto a isso, deve-se desconfiar de campanhas apoiadas pelo grande capital financeiro, a que se podem atribuir muitos crimes, mas nenhum sentimento altruístico ou benefício pregresso à humanidade.
A atual mobilização de massas que motiva jovens idealistas não parece diferir de outras ondas de opinião que falseiam conhecimentos científicos, como foi o caso, há pouco mais de um século, da promoção do branqueamento, fundada na superioridade dos brancos europeus sobre os demais povos – africanos, indianos, americanos, malaios – considerados “raças inferiores”.
Deve-se colocar a questão em termos mais concretos e comprováveis. A floresta retém umidade e permite a vida humana em condições térmicas extremas, no imenso vale em que se despejam águas dos Andes. Serve, assim, como estabilizadora do solo e barreira contra avalanches; e influi inevitavelmente no clima da América do Sul — pelo menos da parte delimitada pela costa ocidental dos Andes.
Devastá-la não é boa ideia.
Se o Brasil tivesse pretendido, de fato, (ou pretenda) manter a soberania política e a iniciativa econômica em sua parte da Amazônia, deveria ter (ou deverá ter) que respeitar as condições impostas pela natureza e consultar a sabedoria resultante de ocupação milenar por pessoas de inteligência similar à nossa.
O processo civilizatório é feito pelo diálogo, pela aprendizagem, enfim, de quem ensina. A chave, pois, teria sido (ou seria) espalhar pela região, com ênfase nas áreas de ocupação indígena, escolas, centros de saúde e de pesquisa. O estudo da floresta só pode dar lucro e a presença das instituições do Estado permitiria a criação de pontes entre as culturas. Quanto mais trocas culturais houver, melhor: graduações de indígenas em universidades; conhecimento e orgulho do passado pré-colombiano do Continente e da filosofia dos povos originários; incorporação ao cotidiano atual da maneira como lidam com a natureza e cuidam das crianças etc.
Se o Brasil estivesse presente – não apenas com soldados, mas efetivamente estendendo a mão amiga com todos os dedos -, não haveria espaço para religiosos que impõem aos índios um deus cruel e incompreensível, difundem sua tara sexual – para que se apressam em vestir a nudez – e fazem da catequese meio de formar rebanhos humanos dependentes. Ladrões de patentes e aventureiros que se fingem de cientistas poderiam ser excluídos, e se interiorizaria bem mais o sentimento popular de pertinência que é a mais poderosa arma de defesa de uma nação.
Tudo que não se deve fazer é o que está sendo feito: o apoio estatal a aventureiros e estelionatários, grileiros e senhores de terras que pretendem ampliar suas propriedades alegando que isso é necessário à economia nacional. Qualquer sujeito que entenda de agricultura e pecuária dirá que não é verdade: uma boa gestão da área disponível para pastagens e plantio, com rotação de culturas adequada e integração da economia florestal, permitiria planejar a ocupação do solo, em lugar de espalhar bois ao acaso em grandes extensões onde havia floresta e intensa atividade biológica.
O atual ciclo de estupidez que engolfa o governo coloca em risco a soberania brasileira na Amazônia porque fornece argumentos aos que a negam com intenções escusas. Isso é particularmente triste porque, justo agora, a acumulação de conhecimento tecnológico abre a possibilidade de viabilizar atividades produtivas com pouco dano ambiental – sobretudo indicar corretamente onde se pode desmatar e onde não se pode.
O aspecto extremo desse erro histórico é a estranha aliança do cordeiro, que somos nós, com o mais feroz dos lobos, em torno de uma ideologia arcaica e de má fama. Não é coisa que possa dar certo.

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