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A santa sabedoria e os que a temem

Pode ser que o Universo não tenha começo, função ou finalidade. No entanto, se a lógica dos homens reproduz a razão do Cosmos (o que muito nos contentaria), havendo criação e criaturas, há Criador. Não se consegue provar o contrário e essa é condição prévia para algo ser verdade: o oposto – ser falso o que não se pode provar ser verdadeiro – conduziria à eliminação das hipóteses e ao fim da ciência.
Santos ou espertos dizem ter encontrado o Criador e com ele dialogado por via da introspecção. À maioria dos homens, porém, é dado apenas encontrá-lo nas coisas e nas pessoas – boas ou más porque lidar com ambas nos torna mais sábios. E o mais fascinante é que o caminho para tal sabedoria está aberto também aos não-crentes: tornamo-nos todos pessoas melhores, o que é outra forma de alcançar o mesmo resultado.
A espécie humana está habilitada – ou condenada – a processar informações, seja para reagir a estímulos imediatos, seja para revisar o incessante planejamento de longo prazo. A sabedoria, no entanto, é consequência do cultivo de uma espécie apenas de conhecimento, que floresce quando o mente se liberta, os contatos são amplos, diversificados, a convivência conduz à tolerância e à solidariedade; a emoção, aí, retém os momentos na memória, como quadros didáticos.
Não se deve confundir sabedoria com erudição, escolaridade ou sucesso. A primeira diferença está na qualidade: é adesão passional, não só cognitiva. Outra, que independe do tempo, lugar, classe social ou domínio de tecnologias: há sábios em épocas, culturas e grupos humanos improváveis. Uma terceira, a modéstia: dispensa notoriedade – e, no entanto, transcende.
Tiranos e demagogos temem mais a sabedoria do que a violência. Isso nos permite compreender porque, por exemplo, ideologias e comportamentos diferentes dos nossos – tão elucidativos de nós mesmos – são cercados de mistério e perigo; somos distraídos para contendas tolas; nos acenam com simulacros de poder e fortuna. Ensinaram-nos a história da Europa como se fosse a história do mundo, a geografia de terras e mares, campo e cidades sem gente, línguas como esqueletos preenchidos por conceitos indefinidos ou estreitados em excesso, algoritmos (o passo-a-passo) e não a lógica dos valores.
Explica, enfim, por que nos escondem as artimanhas da prospecção dos desejos e as artes da retórica com que nos enganam: seria mais difícil enganar-nos, se soubéssemos.
Na atual campanha de vacinação contra a sabedoria, no Brasil, destacam-se chocantes medidas reveladoras.
A permissão para que crianças sejam poupadas de conviver com outras no ensino básico é um convite para que cresçam tão estúpidas quanto seus pais, que lhes impuseram prisão domiciliar; não teria maior importância no todo, se não simbolizasse o desapreço às trocas culturais entre as famílias e não estimulasse a evasão escolar nos meios rurais e periferias em que a exigência das matrículas obriga, por coerção, ao letramento.
A redução dos currículos do ensino básico à receita do “saber ler, escrever e contar”, com a limitação do ensino de ciências naturais e a supressão de disciplinas formativas, como ciências sociais e filosofia, aponta para a divisão radical e imposta entre os que planejam e controlam, de um lado, e os executores, a que se negam ferramentas da cidadania, concorrentes humanos às máquinas inteligentes.
A escola sem partido, afinal, aprisiona gerações futuras em nosso estágio social medíocre, como se fosse possível realizar a ameaça de Fukuyama, de congelar, defunta, a História.
Com todo esse esforço, não poderão, ainda assim, impedir que surja um outro sábio, desgarrado. Esperam apenas, que, se aparecer, nenhum dos entes do rebanho o entenda.
Tal não ocorrrendo contam que haverá, sempre, cárceres em Curitiba.

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