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A resistência pela ataraxia, e o que nos leva a ela

Que fazer quando uma cultura elaborada como a nossa enfrenta o desafio do contágio da elite pela arrogância e brutalidade que nos chegaram com a dominação do império tosco, nos últimos 70 anos?
Não matamos nossos índios em operações militares, como eles fizeram: meio milhão vivem como os antepassados; milhões incorporaram-se ao povo de nossas lavouras e cidades. Não segregamos negros ou índios: os primeiros invasores casaram-se com eles, por isso somos dominantemente mestiços – mixed people, como se confessou Meghan, a Duquesa de Sussex. Orgulhávamo-nos dos escritores, poetas, engenheiros e artistas de todas as cores e sotaques de quem herdamos secularmente nossa sabedoria. Tínhamos uma tradição garantista, sem condução coercitiva, delações negociadas ou condenações por convicção.
Éramos um poder regional, sem ambições maiores até que nos enfiaram goela abaixo a farsa da guerra fria e transformaram parte de nossas forças armadas em núcleos de sádicos emburrecidos. Dávamo-nos bem com nossos vizinhos e recebíamos com carinho os visitantes. Nosso modelo de sociedade, construído pelo idealismo dos tenentes, era social-democrata, com participação e apoio da classe trabalhadora. Fomos tolerantes, solidários, festeiros, dados a abraços e ao banho todos os dias.
Hoje não mais: regredimos à condição de espelho que deforma, esponja de ideias tóxicas, colônia-macunaíma sem nenhum caráter.
A resposta àquela questão inicial me veio em um sonho premunitório e uma palavra: “ataraxia”. Acordei durante a noite com as letras impressas na memória, em corpo futura, negrito. Anotei na mesinha de cabeceira, em uma etiqueta dessas amarelas que se afixam no computador.
Ataraxia é um conceito difundido por Demócrito (460-370 a.C), filósofo pré-socrático de Atenas, e incorporado às doutrinas epicurista, estoica e cínica que acompanharam, do ponto de vista dos indivíduos sábios, a expansão do poder romano sobre as culturas nacionais do vasto império. Significa, basicamente, a resistência pela tranquilidade.
Na filosofia de Epicuro (370-241 a.C), a cólera é prova de fraqueza; o prazer decorre da vida prudente e justa; há desejos naturais e necessários, como a sede ou a fome, que se saciam, e outros, variantes (da bebida, do alimento) – ainda que naturais, sujeitos ao risco da futilidade. A integridade do indivíduo contempla, pelo contrário, a modéstia e a firmeza de suas convicções, mas a ataraxia deve conviver com a agonia, ausência de dor . Daí, rejeita-se a iniquidade ainda quando não se pode combatê-la, com o que se evita maior sofrimento.
O estoicismo, escola fundada por Zenão de Citio (333-263 a.C), radicaliza o conceito e se tornou, por isso, a filosofia mais difundida entre pessoas cultas no império romano após Alexandre, o Grande, discípulo de Aristóteles e que, por opção epicurista, fundava o poder de seu império no respeito à cultura dos povos conquistados. A ataraxia, aí, inclui o autocontrole, “sem raiva, ciúme ou inveja”; a superação de emoções negativas e, sobretudo, a construção de uma sabedoria tal que o homem não seja “amarrado a uma carroça e levado por ela”; sinta-se feliz ainda que diante da dor, do exílio, da desgraça ou da morte.
O cinismo de Diógenes de Sinope (412-323 a.C) acresce a essas características autossuficiência, negação da ordem social do entorno e apatia – crítica e rejeição de estímulos exteriores.
O lamentável disso tudo é que eu tenha sido levado pela magia do inconsciente a sonhar com armaduras ideológicas da Antiguidade para me proteger, e aos meus, de um poder tomado por tolos e agiotas – e esteja aconselhando isso aos demais.
Vale a pena cogitar de como chegamos a tal incoerência impotente.
Não há, então, como deixar de admirar a malévola competência que nos dividiu em torno de eixos de diversão – seja cor da pele, costumes, sexos, regiões, crenças, valores – levando-nos a esquecer que o mundo se move pelas relações da economia e, perante ela, nada nos distingue uns dos outros.
Foi uma guerra de propaganda de várias décadas – até mesmo a invenção de um passado inexistente –, a que me coube assistir, desde que se passou a acusar de corrupção e odiar como inimigos pessoais todos os que contariam ditados do império invasor.

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