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A moça da vitrina do mundo dos ricos

A moça da vitrina do mundo dos ricos

Carmem Therezinha Solbiati Mayrink Veiga faleceu, segunda-feira da semana passada, dia 3, aos 88 anos. Era figura famosa, decantado padrão de elegância, cabide dos vestidos de Yves Sant Laurent, mostruário de joias de fina lavra e imagem constante em exposições de arte. Viúva desde junho de Antônio Mayrink Veiga, com quem viveu por 70 anos – milionário falido de imensa fortuna construída basicamente com o comércio de armas – vestia, no leito de morte, “uma camisola verde água, combinando com o cinza claro dos bordados dos lençóis”, como contou sua amiga Hildegard Angel.
Carmem é personagem de uma das minhas primeiras grandes descobertas sobre mim mesmo.
Estava no começo da vida profissional aí pelo fim dos anos 50, apaixonado pelo jornalismo e confiante na minha habilidade de contar histórias, quando um colunista social chamado Jean Pouchard me encomendou por bom preço pequeno texto – 15 ou 20 linhas – sobre uma fotografia.
Lá estava ela, Carmem, com o marido e um convidado, galã de Hollywood (não me lembro qual; penso em Errol Flynn ou Tyrone Power, que tinham meia idade e morreram por essa época) sentados à mesa, na pérgola do Copacabana Palace. A moça tirara o pé da sandália e o mantinha suspenso; do ângulo em que a foto foi feita, podia-se imaginar que roçava na perna do ator.
Minha incumbência era sugerir isso, sem comprometer o Jean em uma ação judicial. Tentei por horas; não conseguji. Quem cumpriu a tarefa foi o Oscar Maurício Azedo, que era então militante apaixonado do Partido Comunista e aproveitou a rara oportunidade de escrachar a burguesia.
O que descobri: minha originalidade e limitação. A incapacidade de fuxicar a vida íntima das pessoas, de apresentar como escândalo ou excepcionalidade o eventual namoro de uma mulher casada com outro homem, coisa tão rotineira em sociedade; de sugerir algo assim a partir de um pezinho e uma ambiguidade de perspectiva; a rejeição à indústria das fofocas, que prospera sobre o cadáver do jornalismo decente. Mas, em essência, o preconceito de classe quanto a essa gente muito rica que me impede até de humanizá-la. Algo mais profundo e radical do que a mera ideologia.
Hildegard, que é desse meio mas o contempla através da lente reveladora das tragédias (é filha de Zuzu, irmã de Stuart), conta que, por ocasião de seu segundo casamento com um homem não tão rico, Carmem os convidou para um almoço:
“Estávamos de partida para uma peregrinação a Medjurgorje voltando por Paris. Carmen resolveu aconselhar o noivo. “Qualquer vestidinho para usar de dia, de alta costura, em Paris, está custando 30 mil dólares. Os de coquetel custam 80 mil dólares pra cima. Então, quando Hilde for usar os vestidos que você vai comprar, ela tem que ficar atenta, porque essa coisa de comer caviar em pé acaba com qualquer roupa”. Apertei a mão do Francis com medo de ele se levantar da mesa pra nunca mais. E Carmen nem aí. “Outra coisa, Francis. “Não dê bugigangas de 100 mil dólares pra Hilde. Essas joias perdem todo o valor na revenda. O que vale é a pedra. Compre joias importantes para ela”. Foi aí que não me contive. “Ô, Carmen, você quer que eu perca o noivo antes da viagem?”.
Agora, me digam: É ou não é coisa do outro mundo?

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