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A milícia ascende ao planalto

A última campanha eleitoral levou ao governo do Estado do Rio de Janeiro uma estrutura de poder com traços tipicamente cariocas, a milícia, e a alçou e ao mais elevado nível decisório da República.
O nome não diz bem o que é a coisa: trata-se de um efeito da tensa disputa – tanto bélica quanto diplomática – entre policiais e traficantes pelo controle e pacificação de grandes concentrações urbanas irregulares. Resulta tanto do culto dos super-heróis acima da lei quanto da tentativa de uma sociedade radicalmente liberal conviver com outra, radicalmente repressiva.
A milícia é grosseira e inculta. Dá-se bem com o funk e o sertanejo universitário — mundialização do folclore e expressão lustrada do atraso dos cafundós. Atende à solução fácil de quem busca culpados para problemas de solução difícil, mas antecipa, talvez, a era sem estados e política visível – o controle impessoal que dirigirá os homens por aplicativos, tornando-os livres como pedras que rolam no rio, as maiores por cima das menores.
Tudo começou quando soldados de regimentos baianos oriundos da campanha conra a cidadela de Canudos foram trazidos ao Rio de Janeiro, no final do Século XIX, e acantonaram com suas famílias na encosta do Morro da Providência, junto ao Quartel General, hoje comando do I Exército. Nascia a favela, filha da República que cresceria com a especulação imobiliária e, na raiz, dada a desigualdade entre regiões do país e o empobrecimento de áreas rurais próximas da metrópole. Sua multiplicação e expansão estimularam o racismo entre os mais ricos e ilustrados – os que se imaginam brancos. Sobrevive de servir à cidade; distribuir drogas no varejo é um dos serviços mais lucrativos que presta.
Presa em armadilha, na fronteira entre dois mundos que se estranham, a polícia negocia, em cada comunidade, com o poder local, exercido pelos traficantes; quando o varejo do tráfico se organiza em estruturas maiores, a negociação se eleva do pelotão à companha, desta ao batalhão, ao comando ou ao governo do Estado, como em São Paulo. O entendimento padrão é liberar o tráfico em troca da paz no entorno urbano. De uma forma ou de outra, corre dinheiro em tais ajustes.
A aceitação desse mecanismo, no Rio de Janeiro, apoia-se na tradicional convivência da população com o jogo do bicho, promoção inventada para financiar um jardim zoológico privado e que gerou complexo de operações bancárias extralegais de alta confiabilidade pública e difusão nacional. A ilusória repressão a essa contravenção – e as vantagens de tolerá-la – é o modelo copiado nos acordos entre polícia e tráfico. Um ex-oficial do Exército e próspero banqueiro do jogo, o Capitão Guimarães (Aílton Guimarães Jorge), é uma espécie de patrono desses ajustes.
Em tais circunstâncias, era previsível que a organização policial se desdobrasse formando grupos paralegais com pessoas afins – militares reformados ou dispensados do serviço, alcaguetes, valentões – para a conquista do espaço que a lei não lhe permite ocupar e dos lucros de toda sorte de atividades nas áreas faveladas, da construção civil e incorporação de imóveis ao fornecimento de luz, gás, televisão por cabo e transporte, além da cobrança de taxas de segurança… e, afinal, da exploração do tráfico.
Como toda organização criminosa de porte, as milícias cuidam de se infiltrar no poder político e associar-se a máquinas ideológicas que exercem o controle psicossocial da comunidade excluída. Quando se trata de perpetuar a exclusão em massa, a solução que mais atende aos interesses dominantes é a sublimação pela fé – daí a associação histórica entre religiões e impérios. A violência é subsidiária e eventualmente, os que a aplicam, como os melhores ginetes, tomam as rédeas nos dentes.
A política, no Brasil, se faz com dinheiro e se beneficia do instrumento de fraude e coerção de que as milícias dispõem – estão aí os casos do Queiróz e da vereadora Marille; as igrejas de confissões evangélicas neopentecostais oferecem ampla oportunidade de legalizar fundos arrecadados fora das normas legais, porque não pagam impostos e recebem muitas doações voluntárias não declaradas.
Armou-se, assim, a equação que domina a cidade do Rio de Janeiro desde que se sufocou a onda de idealismo cuja mais recente expressão foram os cieps, o sambódromo e a ordem dada aos policiais para que, diante da porta de um barraco, pedissem “Por favor, dá licença?” — coisa que causa estranheza não só na burguesa Gávea Pequena ou no Recreio dos Bandeirantes, mas também na Tijuca dos coronéis e até no Méier. dos quase proletários.

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