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criação da insignificância

A metamorfose e a 
criação da insignificância

Estamos em vias de nos transformar em outro país.Nossa base populacional foi constituída, originalmente, por milhões de indígenas distribuídos pelo território e número pequeno de negociantes europeus – portugueses, principalmente – que aqui aportaram nos primeiros dois séculos após o descobrimento.
Quando Portugal começou a colonizar de fato o território, por volta do século XVIII, com os ciclos da mineração e da cana-de-açúcar, agregou-se à população um contingente de africanos estimado em quatro milhões de trabalhadores trazidos como escravos.
Nos últimos 150 anos, finalmente, outras correntes migratórias trouxeram ao país, e distribuíram de maneira desigual no território, excedentes populacionais e refugiados (europeus, principalmente) que foram se integrando à cultura originária – miscigenando aos poucos e aprendendo a ser livre.
Um país mestiço e diversificado, portanto. Nele se formou ideologia nacionalista, porém inclusiva, fundada na aspiração de harmonia, no orgulho da diversidade e na indispensável tolerância; os objetivos nacionais traçados exaltavam desenvolvimento e paz – destacadamente, desde o último quarto do século XIX, com os vizinhos.
O que temos agora?
Não um novo governo, mas um novo regime, implantado pela fantasia que cerca uma família de sujeitos misóginos que refletem, em diferentes facetas, dinâmica de grupo esquizofrênica paranoica. O atraente carro alegórico dos Bolsonaro, armado de impressionantes e vazias palavras-de-ordem, transporta os demolidores do que resta de suporte institucional da nação que se desmonta: a burocracia do Itamaraty, as portentosas redes de ensino básico e superior e as estruturas concebidas para moderar conflitos étnicos e sociais agravados pela pobreza. Legiões de fanáticos os apoiam, numa reação religiosa subjacente, movida a Antigo Testamento, exorcismos e extorsão dos fiéis.
O exército nacional, covarde e estulto, aceita e colabora. Outros pilares do edifício institucional brasileiro foram anulados ou abalados em longo processo de castração cultural, infiltração e convencimento que, na última década, configura o quadro de guerra híbrida, patente norte-americana. Assim ruíram as áreas industriais de tecnologia avançada, a indústria de infraestrutura e, em particular, de extração e processamento do petróleo: dono de enormes jazidas, o país poderia apoiar-se nelas para um salto maior, porque não constituiriam suporte único (como na Venezuela ou na Arábia), mas se integrariam ao quadro de uma economia diversificada, como caso dos Estados Unidos.
Nesse processo utilizaram-se destacadamente herdeiros de famílias oriundas de regiões em que grassavam ideias fascistas, há três ou quatro gerações – os Moro, os Francischini, os Dallagnol etc. – e alojadas no sul do país em “terras novas” do interior; e personagens de guetos étnicos coloniais, base eleitoral do antigo integralismo pró-nazista/salazarista. Tal como em outras partes do mundo, o fascismo renasce, inflado pelo capital; seu discurso nacionalista é hoje meramente cínico.
O único objetivo do regime em implantação é destruir o país que havia. O novo terá muitas farmácias, enormes lojas de quinquilharias, milícias e bangue-bangue: se imaginará branco, pertencerá à ganância e será gerido com base em interesses externos. Não pretende nada, não construirá nada, não quer ser nada – apenas um campo de combate enorme, onde lutaremos todos, do berço ao túmulo, uns contra os outros e pela sobrevivência de cada qual. Indefesos, apenas individualmente armados.

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