Home Colunistas Em geral A guerra desembarca na“ilha distante”

A guerra desembarca na“ilha distante”

Quando a Europa se dispôs a conquistar o mundo, fez-se ao mar. No começo, as pequenas caravelas de Portugal; logo, pesados galeões espanhóis que levaram nos porões ouro arrancado do reboco das paredes dos palácios incas. Tal como acontecera com os cavaleiros medievais cobertos de ferro, vulneráveis à flexibilidade dos floretes, 130 desses barcos desbarataram-se em mar revolto no combate com os ágeis navios piratas do capitão Drake.
A vitória inglesa sobre a Invencível Armada espanhola de Felipe II, em 1588, no Canal da Mancha, foi o ponto de não retorno no processo de transferência do poder dos impérios católicos ibéricos para a banca protestante feita nobreza na Inglaterra e na Holanda. A superioridade militar, sucedendo a dependência financeira, iria afirmar-se pelo controle das vias marítimas, como registrou o americano Alfred Mahan em seu texto básico de geopolítica, de 1890, “A influência do poder naval na História, 1660-1783”
O domínio dos mares preconizado por Mahan é, ainda, o principal instrumento de dominação do império americano, herdeiro dos ingleses.
Historicamente, os chineses têm preferido ir por terra, e rumam para o Ocidente. Trata-se de perspectiva contemplada no artigo “O eixo geográfico da História”, do geógrafo inglês Halfold Mackinder, publicado em 1904 e muito citado atualmente.
Mackinder situa no Leste Europeu o “centro nervoso da Terra” (no original, “heartland”) e estipula três etapas de domínio político: quem o controlar o “heartland” dominará a Eurásia e a África; daí, avançará sobre as “ilhas próximas” (Japão e Inglaterra); e, finalmente, as “ilhas distantes” (as Américas e a Oceania, que o autor insere aí).
As tentativas reiteradas de avanço desde a Europa Ocidental e o Oriente Médio no rumo do centro da Eurásia esbarraram, primeiro, nas resistências pelo caminho, em particular dos romenos do Príncipe Vlad, retratado como Drácula, e búlgaros, cujo nome deu origem à corruptela “bugre”, aplicada aos bárbaros; depois, já em tempos modernos, resultaram nas acachapantes derrotas militares dos exércitos de Napoleão e de Hitler.
Percurso inverso provou-se viável na Idade Média, quando burgos se formaram na Europa, ao Norte, e prósperas cidades-estado se espalharam pala costa do Mediterrâneo, de Chipre e Grécia à Itália e Espanha, negociando mercadoria do Oriente – não só as especiarias geralmente citadas nos livros de história, mas também porcelanas, tecidos e toda sorte de manufaturas.
É o que inspira os atuais planos da China para reativar as “rotas da seda” medievais utilizando estradas de ferro de alta velocidade; colares de portos, do Índico ao Mediterrâneo, e inovadora rota pelos mares gelados do Ártico. O centro da Eurásia – o Leste Europeu, a “heartland”, terá sido, assim, circundado e devassado.
Confrontando-se os modelos de Mahan e Mackinder, a disputa é entre estratégias centrípeta, dos mares à terra, e centrífuga, da terra aos mares. Podem-se, assim, explicar conflitos que deságuam, agora, com intensidade inusitada, na América Latina.
Entende-se que, após os eventos recentes no Irã, Síria e Turquia, tendo contido o avanço dos Estados Unidos sobre a totalidade das reservas de petróleo do Oriente Médio, as potências centrais que se aliam estrategicamente – Rússia, China e o entorno, por vezes discreto ou dissimulado – olhem com lente de aproximação a distante “ilha sul-americana”. Trata-se, do ponto de vista chinês, da segurança alimentar do país, dependente da importação de proteínas; na perspectiva russa, de evitar nova manobra de dumping no mercado de petróleo, com a exploração acelerada não apenas do fracking do xisto, mas das gigantescas reservas venezuelanas, do Brasil e, talvez, da Argentina.
Sitiar e estrangular países é, desde sempre, próprio da lógica centrípeta dos impérios saxões, como nossa história prova; expandir-se a longa distância, em tempo de meios aéreos e espaciais, uma tentação centrífuga que ecoa em nosso descontentamento.
O fato é que não há juízo moral admissível nessa história – ou seja, não é democracia, representatividade ou competência do governo Maduro que estão em causa. Nem isso vai acabar tão cedo.

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