Tá na hora!

Tá na hora!

Os mortais comuns não sabem o que é postar-se diante de uma folha de papel em branco (ou de uma página de processador de texto em branco), com um prazo apertado para escrever aquilo que, amanhã, impresso e indelével, estará nas mãos de milhares de pessoas. Falo em 30 minutos de prazo. É suficiente? Ou vocês estãos habituados a trabalhar com pressão ainda maior?
Ao jornalista não é dada a graça de poder manter seus erros em petit comitê. A gente distribui o erro em milhares de bancas, entrega na casa de milhares de assinantes, inscreve, para sempre, na lousa eterna da internet. As emissoras de rádio que apenas copiam os jornais e os portais, difundem o erro para inúmeros automóveis presos em incontáveis engarrafamentos. Tudo porque, naqueles 10 minutos finais, de revisão apressada, ajustes superficiais e remontagem da frase de abertura que insiste em ficar confusa, o erro se camufla e esconde.
Mesmo sabendo disso há muito tempo, nunca consegui escrever nada a não ser no último minuto. As crônicas semanais do meu início de carreira, já eram escritas sem paradas para releitura ou ajustes, porque começava 15 minutos antes do horário final. As matérias do dia-a-dia, mesmo aquelas cuja apuração foi feita de manhã, eram escritas enquanto soavam as badaladas da undécima hora. Sob pressão. E tudo continua igual, quase meio século depois.
O conjunto completo, portanto, é composto de um teclado, uma folha em branco (virtual ou real) e a pressão do prazo. Sem uma dessas partes, fica muito complicado cumprir a tarefa. Diria mesmo que sem computador sempre dá para escrever, usando um lápis ou uma máquina, mas sem pressão não tem jeito.
Até nas “redes sociais”, lugar imaginário e completamente desprovido de qualquer compromisso, tenho que estabelecer-me certas rotinas para que, de tempos em tempos, sinta-me obrigado a colocar no papel (ou que nome tenha aquela telinha), uma meia dúzia de três ou quatro frases. Não foi à toa que acertei, comigo mesmo, o compromisso de colocar coisas novas todos os dias.
Nos compromissos mais sérios, como esta coluneta semanal, quando o prazo se aproxima começo a encontrar rotas de fuga. Até que, esgotadas todas as alternativas, só resta a derradeira. “Senta e escreve, seu mandrião!” ordena, com legítimo sotaque de Manezinho da Ilha, a minha consciência. “Ainda tem tempo”, retruca (ahá, estava tentando usar esta velha palavra há meses, sem sucesso) meu corpanzil, imerso em toneladas de preguiça. Respirando com um canudinho de palha (daqueles anteriores aos canudinhos de plástico, do tempo em que guaraná se tomava em taça), tento ficar quieto para que a consciência se esqueça e mude de assunto.
Mas, como é possível ver pela quantidade de letras, palavras, frases e pontuações que adornam esta página, fui mais uma vez vencido. Colocado diante de um espaço em branco, com pouquíssimo tempo, saí-me com esta coisa. Que, se não tem nada de excepcional, pelo menos faz com que a leitura da terça-feira não fale de corrupção, morte, ladroagem, pessoas peladas, teocracia, preconceitos, pedofilia e todos os males que a esquerda (e apenas ela) causou e causará. Ainda bem que, na direita que nos governa e na extrema direita que pretende governar-nos, só tem gente honesta e competente. Como aliás temos visto todos os dias no noticiário. Boa semana, então.

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