“Só matando!”

Estudo monitorou mortes durante uma semana no Brasil

Acho que todos nós suspeitamos que, no Brasil, a vida anda valendo muito pouco. Era só uma impressão, uma conclusão sem muita base científica, de coisas que a gente via, ouvia ou lia, aqui, ali e acolá. Por isso, as conclusões apresentadas ontem pelo projeto “Monitor da Violência”, não surpreendem. Ainda que assustem.
O projeto do Núcleo de Estudos da Violência (da Universidade de São Paulo) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (uma ONG que existe desde 2005), colocou 230 jornalistas do portal G1 (das Organizações Globo) a apurar as mortes violentas no Brasil, na semana de 21 a 27 de agosto. Foram 1.195 mortos em 545 cidades. Uma morte violenta a cada 8 minutos.
Muitas guerras deste e de outros tempos, mundo afora, não têm, em uma semana, tantos mortos. E isso que o projeto não computou, como morte violenta, as causadas por acidentes de trânsito, modalidade em que somos recordistas mundiais (39.500 mortes em 2015).
Os resultados, como disse, não surpreendem: “De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. A chance de um negro ser vítima de homicídio é 23,5% maior que a de pessoas de outras raças/cores. Em estados do Norte e Nordeste, o abismo é ainda mais profundo. Em Sergipe, por exemplo, a taxa de homicídios entre negros é de 73 por 100 mil habitantes, enquanto que a de brancos é de 13 por 100 mil”.
E as histórias, recolhidas pelo projeto mostram, por exemplo, que uma dívida de R$ 20,00 pode custar a vida. E que é tão perigoso ser mulher, quanto negro e pobre. Apesar das estatísticas raras e falhas (até na anotação do crime de que foram vítimas, as mulheres acabam sendo maltratadas), estima-se que cerca de 50% das mulheres assassinadas foram mortas por companheiros, ex-companheiros ou familiares.
Esses abismos socioeconômicos, associados à impunidade, criam uma situação que não nos permite ver o futuro com muito otimismo. A banalização da morte como única punição possível, presente até em discursos de políticos (“bandido bom é bandido morto” ou “tem que fuzilar quem montou aquela exposição”) reflete, mesmo sem querer, o desencanto com o sistema judiciário.
Começa pela polícia, que dificilmente investiga crimes cuja autoria seja desconhecida, por falta de recursos, de pessoal ou de conhecimento técnico. Continua pelo sistema como um todo: hoje a grande maioria dos presos, na enorme população carcerária brasileira, está ali por delitos relacionados às drogas. Não a homicídios.
E a gente acaba se habituando a uma cultura popular em que “mandar matar” é sinônimo de “justiça”. Porque não vê solução em outro tipo de atitude. Em média, os julgamentos de acusados de mortes violentas levam oito anos e meio. Isso quando o inquérito indicia um autor.
Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP afirma, ao comentar os resultados da primeira etapa do projeto: “boa parte dos autores não age por impulso, nem por loucura, nem porque estava bêbado ou sob efeito de drogas. Eles matam e sabem o que fazem, tiveram tempo para pensar e calcular antes de executar a vítima. Naquelas circunstâncias em que agiram, enxergavam o assassinato como um instrumento para resolver seus conflitos. Acreditavam que o homicídio era a melhor solução para seus problemas”.
E, com o que se tem visto por aí, nada indica que a coisa vá melhorar. Ao contrário. Sem educação pública de qualidade e com o discurso da violência generalizado (do futebol à política), as “cidades sem lei” do velho oeste norte-americano parecerão ilhas de tranquilidade perto desse “salve-se quem puder” tupiniquim.

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