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Putz! Carnaval de novo?

Mamãe eu quero! Mamãe eu quero mamar!

Não faz muito tempo, o Carnaval de rua de Florianópolis era uma festa popular, no estilo vai quem quer, sem precisar pagar ingresso, sem precisar se preocupar com muita coisa.
Lembro de um ano em que professores e alunos do curso de Jornalismo da UFSC, junto com alguns parceiros, resolveram fazer um bloco de carnaval. Dá pra situar bem a época pelo nome do bloco: “Império dos Sentidos” (por causa do filme, claro). O grande J. Gordinho fez o samba enredo. Nas horas vagas, ele era alto funcionário (sim, naquela época se chamava assim) da recém-criada Eletrosul. Na vida real, um dos muitos cariocas transferidos para a Ilha de Santa Catarina.
Ajudei a improvisar um estandarte. E estava pronto o bloco. Bloco sem a bateria? Claro que não. Na grande festa popular que ocorria na Praça XV e nas ruas próximas, principalmente na Felipe Schmidt, tinha muitos blocos “de sujos”, vários deles com excelentes percusionistas e muitos instrumentos. A gente, com nosso estandarte, ia à frente de algum desses blocos, aproveitando o ritmo deles e fazendo de conta que era tudo uma coisa só.
Os moralistas de araque que hoje brotam das sombras como baratas das caixas de gordura, ficariam escandalizados: professores e alunos fantasiados de mulher, maquiados pelas esposas e namoradas, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Bastava um maiô e uma peruca e pronto, ali estava Lady Laura, a mãe do Roberto Carlos. Se a peruca fosse mais loura e comprida e o vestido mais curto, shazam!, Wanderléa, esplendor dos anos 60. E assim por diante.
Ninguém, até onde sei, foi contaminado ou curado da homossexualidade por causa das fantasias de carnaval. Era uma brincadeira divertida, que ia ficando meio surrealista à medida em que o nível alcoólico ia subindo no sangue. E a forma como cada um tocava sua vida, era resolvida (ou não), em geral depois que tirava a fantasia.
O carnaval em torno da Praça XV foi uma festa democrática e realmente carnavalesta por muitos anos. Bem antes das “passarelas” e “sambódromos”, as escolas, blocos e sociedades carnavalescas (com seus carros de alegoria e mutação) desfilavam no meio do povo, circulando a praça, encantando gente de todas as idades. Não tinha muito isso do “espectador”: iamos todos brincar o Carnaval.
Mas, com o tempo, foram “organizando” a folia, criando espaços confinados para o “espetáculo” das escolas de samba, que precisavam cada vez de mais dinheiro, para poder montar um show teatral de qualidade, que ocupasse aqueles espaços imensos e obedecesse a regras minuciosas, para poder tirar notas boas. E, com 9,45 para um, 9,48 para outro, 9,50 para a campeã foi-se acabando a graça.
Os blocos de sujos foram sendo contidos, segregados e obrigados a tomar cuidado com o horário, o dia e o local de seu desfile, porque poderiam sem assaltados, arranjar briga, desentender-se com a turma que, tal e qual no futebol, sai de casa apenas para arranjar encrenca.
A festa foi ficando chata, triste, como quase tudo. A facebuquização da vida em sociedade é um saco. Todos têm uma lição de moral a dar, todos têm uma explicação definitiva, todos têm uma compulsão quase suicida para acreditar em informações falsas que parecem verdadeiras e todos acham razoável e justo que os inimigos sejam presos, torturados e mortos e os amigos sejam considerados, sempre e acima de tudo, inocentes de todas as suspeitas e merecedores de toda a grana que conseguirem angariar nos cofres públicos. Evoé Momo!

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