Home Colunistas De olho na Capital Cocô na praia, no mangue, no quintal…

Cocô na praia, no mangue, no quintal…

Os “vazamentos” da estação de tratamento de esgotos (em vermelho) no norte da Ilha de Santa Catarina

Há muito tempo, todas as casas e prédios próximos do mar, em Florianópolis, jogavam seu esgoto diretamente no mar. Ou então na rede pluvial, que acabaria chegando ao mar. Antes, no tempo da escravidão, os tonéis com excrementos dos moradores das casas mais ricas eram carregados, à noite, pelas ruas centrais do Desterro, para serem jogados… no mar.
Essa cultura de usar o mar como cloaca, ao que parece, nunca abandonou os catarinenses. Agora, mesmo com redes de esgoto e estações de tratamento, continuam achando um jeito de despejar a merda in natura no mar.
A Casan acaba de ser multada em R$ 660 mil pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) porque, no verão passado, deixou vazar muita porcaria da estação de tratamento de esgotos de Canasvieiras, no norte da Ilha. Entre janeiro e março de 2017 a merda transbordou da estação em pelo menos quatro oportunidades.
Quando vazou no rio que saía ali perto, na praia, a grita foi grande. Aí o que os espertos da Casan inventaram? Criaram um desvio, para que o cocô fosse para o rio Papaquara, que não desagua na praia, mas vai para o manguezal dos Ratones e só aí chega ao mar, próximo da praia da Daniela. Esconderam a merda embaixo do mangue.
E isso é crime grave. Os mangues são criadouros de muitas espécies, é um ecossitema rico e delicado. A multa, portanto, foi suave, coisa de compadre, de pai para filho. E o valor, se duvidar, é menor do que os “bônus” que a diretoria da empresa de emerdalhamento urbano recebe todos os anos pelos “bons serviços”.
O turismo, para Santa Catarina, também é um ecossistema delicado. Cria empregos, movimenta a economia e se a temporada for bem administrada, pode ser que comecem a vir também em outras épocas, ajudando na sobrevivência e bem estar da espécie humana em vários locais. Isso de jogar merda na praia é o equivalente a dar tiro no próprio pé. Jogar nos rios, idem. O governo do estado fica fazendo propaganda do litoral mas não consegue colocar uma das suas principais empresas, a Casan, nos eixos. Alguém deveria dizer a quem planejou o sistema de esgotos com estações de tratamento subdimensionadas, que transbordam na temporada, que não dá pra continuar matando as galinhas dos ovos de ouro afogando-as em coliformes fecais. Mais cedo ou mais tarde o turista se cansa de ter que gastar dinheiro em dermatologista e gastroenterologista e em remédios depois de cada temporada nas lindas praias deste estado porcalhão.
Sem falar no nojo que é ver passar ao lado, boiando numa marola, um cagalhão (que os nativos chamam, jocosamente, de “marinheiros”: “e aí, como foi o banho de mar?” “Foi ótimo, consegui desviar de dois marinheiros”.)
No verão a Casan despejou mais de 33 milhões de litros de merda sem tratamento no rio Papaquara (e portanto, na bacia do rio Ratones). Façam as contas, pensem nisso: é muita sujeira, é muita irresponsabilidade, é muito desrespeito com todos nós. No próximo verão, tenham certeza, acontecerá coisa semelhante. “Um lamentável acidente”, dirá o governador da hora, meio que tirando o corpo fora. E se as multas continuarem assim amigáveis, valerá mais a pena ficar pagando as multinhas do que fazer um upgrade no sistema meia boca que, ao que parece, foi implantado.
O pior: nos demais municípios a coisa não é muito melhor. Ou vocês têm certeza que a praia de vocês é mesmo bem limpinha?

Compartilhe: