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Bom dia, tenho más notícias!

A “ideia” sendo carregada nos ombros dos militantes

Não sei se conto de uma vez só ou aos pouquinhos. Mas a prisão de Lula não vai mudar quase nada na vida do país. A economia não vai “deslanchar assim que o molusco for preso”, como alguns imaginavam. E, da mesma forma, a corrupção não vai acabar (e eu arriscaria dizer que sequer diminuirá significativamente) agora que tiraram Lula de circulação.
Aquela história de que “agora vamos acabar com o foro privilegiado para ir atrás dos outros”, tem chances mínimas de prosperar. Porque a vontade que muitos de nós temos, de dar um aperto nos ladrões do colarinho branco e fazê-los reduzir a velocidade com que enfiam a mão no baleiro, não encontra respaldo nos andares mais altos. Lá, a palavra de ordem continua sendo “estancar a sangria”.
Sei que muitos de vocês são otimistas e cheios de esperança de que o Brasil tome jeito. E, animados com os resultados que a lava-jato obteve até agora, acreditam sinceramente que ela terá continuidade com o mesmo ímpeto e velocidade com que atuou contra Lula.
O que meus olhos calejados e míopes vêem, contudo, é algo um pouco menos alentador. Cumprido o objetivo de tirar Lula das eleições, voltará a discussão da prisão após a segunda instância. Afinal, tem muita gente “boa” que está entre a cruz e a caldeirinha. Enquanto for mantido esse desvio que usaram para prender Lula no pré-eleitoral, os demais condenados em segunda instância, ou aqueles que já tenham sido condenados na primeira e estão na fila para passar pela segunda instância podem ser presos a qualquer momento, sempre que o judiciário achar que precisa dar uma satisfação à opinião pública: “afinal, valeu só pro Lula? e os outros?”
Portanto, assim que não restar a menor dúvida (ou brecha) sobre a inelegibilidade de Lula, a Ação Declaratória de Constitucionalidade sobre a prisão após duas condenações, voltará a ser pautada no Supremo. É o que, neste momento, parece ser a coisa mais provável de ocorrer.
E aí, o que importa é o suspiro de alívio de todos os políticos que respondem a processo. Ninguém, no andar de cima, está muito preocupado com o fato dessa mudança na jurisprudencia acabar libertando Lula. Ele será, então, pensam eles, página virada. E a principal preocupação, desde sempre, é salvar os pescoços dos amigos que foram pegos com a boca na botija.
Por mais que a prisão do Lula tenha representado um alívio para muita gente que esbravejava contra “o maior ladrão da história do Brasil” e uma mensagem cheia de esperança em dias melhores para quem realmente achava que essa era a solução, o que a realidade vai mostrar é que Lula não era assim tão poderoso, a ponto de ser a fonte de todos (ou dos principais) males do Brasil.
Mas é, isso sim, um estrategista político muito hábil, que aproveitou o momento da prisão para unir forças progressistas e deixar, para quem quiser entender, um recado muito claro, que o grande professor Nilson Lage (que escreve aqui no DIARINHO todo sábado), sintetizou:
“Ele [Lula] revelou sua estratégia com uma lembrança que é uma parábola; em 1979, ele, o conciliador, fez com os patrões o melhor acordo possível, que os trabalhadores rejeitaram. Após um tempo, decidiu agir de outra forma: comandou uma greve enorme, embora sabendo que seria derrotada. E aí descobriu que a luta e a derrota são instrumentos de formação de consciência, e isso vale mais do que o ganho em qualquer greve.
Deu para entender o processo de raciocínio?”
Então, se a prisão de Lula está longe de ser o fim das esquerdas e também não fará com que os ladrões encastelados em cargos públicos, sintam-se ameaçados, terá servido para quê?

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