Home Colunistas De olho na Capital A ampla, difusa e injusta nuvem de suspeitas

A ampla, difusa e injusta nuvem de suspeitas

O prédio da reitoria da UFSC, no campus da Trindade, 
em Florianópolis, com seus inconfundíveis mosaicos

Na semana passada a Polícia Federal prendeu o reitor da UFSC, Luís Carlos Cancellier de Olivo. É suspeito de não ter prestigiado o corregedor da universidade na apuração de umas suspeitas de desvio de recursos públicos e, ao ter avocado o processo para o gabinete, não pretender dar seguimento à investigação. Bom, tem muita água pra passar ainda debaixo dessa ponte e ainda estamos a alguma distância de saber o que de fato ocorreu.
Mas o fato de uma operação da PF envolver professores da universidade, um projeto com financiamento federal e ter prendido o reitor, deu muito o que falar nas tais “redes sociais”. Muitos dos comentarista disseram, como é tristemente comum nos espaços de comentário, barbaridades que beiravam a insanidade.
Como um, que escreveu: “Esse vagabundo é da turma petistas que tomaram de assalto nossas universidades. Cadeia é pouco para esses safados.” Ora, até mesmo o mais distraído sabe que Cancellier não é petista, elegeu-se disputando uma eleição contra dois candidatos assumidamente de esquerda e sua campanha foi construída como oposição à gestão anterior, simpatizante entusiasmada do governo petista. Mas essa é a realidade das “redes”: imbecis abundam e a verdade é apenas um “detalhe” ao qual não se dá muita importância.
Muitos aproveitaram os fatos policiais para destilar um indisfarçado ódio contra o que se faz nas boas universidades brasileiras (UFSC inclusive): por exemplo, falaram mal das pesquisas e das parcerias com empresas que buscam, nesses laboratórios, soluções para problemas de vários tipos. Trataram de demonizar essa vanguarda tecnológica, como se o fato de um laboratório ter financiamento externo fosse ruim. E como se todos os envolvidos com esse tipo de trabalho fossem, em princípio, desonestos.
Mas, quando um grupo de políticos, movidos pelos mais diversos interesses, vai a Israel, numa missão com finalidades claramente comerciais, levemente disfarçadas de interesse por um ambiente de inovação que talvez, quem sabe, poderia ser reproduzido por aqui, soa muito bacana a participação da universidade nos avanços tecnológicos que as empresas estão vendendo para os visitantes estrangeiros.
Os relatos da visita elogiam, com acerto, as pesquisas desenvolvidas pela Universidade de Tel-Aviv. É de pensar se não seria ótimo que um dia, quem sabe, os políticos que gostam tanto de ir a países inovadores, fizessem uma missão para visitar a UFSC e conhecer algumas dezenas ou centenas de projetos que ali estão sendo desenvolvidos, ou até que já geraram patentes importantes. São equipamentos que contribuem para a exploração do pré-sal, desenvolvimentos que ajudam a WEG a se firmar como liderança mundial, achados que ampliam a possibilidade de tratamento de várias doenças. Enfim, a inovação está aqui ao lado, mas não rende passeios, diárias e extensa cobertura da mídia.
Voltando ao caso: a nuvem de suspeita que a operação lança sobre toda a universidade é tão injusta quanto o juízo que gente desinformada faz, elogiando no exterior o que reprova aqui. E querendo inovação e avanço tecnológico sem dinheiro privado e sem remunerar adequadamente os pesquisadores e os laboratórios, na contramão do que se vê mundo afora.

Compartilhe: