Visitando os mortos

Assunto tétrico?! Que nada, muito interessante.
Entre as instalações de uma cidade, que acho absolutamente necessário conhecer para entendê-la, está o chamado Campo Santo. Uma cidade maior terá mais de um – mas sempre haverá o principal, o mais tradicional, aquele no qual se lê tanta coisa. Esses locais – antigamente, habitados por fantasmas, almas-do-outro-mundo e mais seres assustadores, nos nossos dias já gozam de uma certa compreensão e até diria, popularidade.
Haja à vista o reconhecimento de alguns como Patrimônio da Humanidade – o fabuloso Staglieno, de Gênova, e os carismáticos Père Lachaise e Cemitière des Chiens, em Paris. Mas também o de Buenos Aires goza de uma certa notoriedade – devido ao sepulcro de Evita Perón, que não se encontra, porque está com no nome de solteira da presidente argentina, Maria Eva Duarte.
Como regra, os cemitérios mais representativos, de leitura mais imediata, são os de capitais de países – ou mesmo, de capitais regionais. Mas os das pequenas cidades, podem apresentar surpresas – nomes de figurões que imaginávamos descansando em outras paragens, ou homônimos que levam a considerações históricas disparatadas.
Sempre há grupos de gatos perambulando entre as carneiras – não me parece que os bichanos tenham tendências antropofágicas, simplesmente trata-se de um lugar quieto onde estão a salvo de atropelamentos. E onde, com o tempo, sempre haverá quem, com as flores para homenagear um falecido de estimação, terá o bom coração de trazer uns punhados de ração.
O carisma de lugar assustador também se está diluindo: os cemitérios mais ricos culturalmente, contam com visita guiada – sempre muito concorrida, principalmente se for à meia-noite. O negativismo foi, me parece evidente, inventado e cultivado, pela literatura desde o século XIX – todo mundo já leu algum texto do Edgar Allan Poe – e mais tarde pelo cinema e pelos gibis, onde se tornaram um gênero dos mais explorados. E mesmo, comercialmente bem aceitos, o que prova ser, o pavor de cemitério, uma coisa meio prá inglês ver.
Mais de um fotógrafo já os usou como cenário – as arquiteturas características, mais ou menos típicas no Ocidente – proporcionam paisagens sugestivas quanto ao conteúdo simbólico – e sem carros para atrapalhar.
O silêncio relativo – sempre haverá uma rua ruidosa nas imediações, a elevação espiritual sugerida pelos ciprestes, uma ou outra pessoa com ar compungido colocando flores – condiz com a recomendação “requiescat in pace”.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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