Vida de apertamento

Não há muito tempo, era um trocadilho: “não moro mais em casa, estou na vida de apertamento”. Infelizmente, deixou de ser apenas um calembour: tornou-se uma presente realidade, uma condição de modernidade.
Mesmo quando as pessoas insistem em morar em casas – ou sua versão mais compacta, o sobrado – noto que há cada vez menos espaço. Menos privacidade, mesmo porque um dos argumentos básicos a favor dessa compressão, é que a vida moderna – sempre dentro de um conceito muito discutível do que significa essa palavrinha – não precisa de mais espaço do que é ofertado.
Entrariam aí dois fatores: primeiro, aumento significativo dos espaços públicos e áreas de lazer e trabalho coletivos: o ser humano estaria se socializando, aprendendo a desempenhar suas funções na companhia de seus semelhantes. Ou pelo menos, essa é uma alegação que poderia justificar a compressão. Preciso dizer que a acho completamente falsa? Há o que se pode fazer no meio de uma festa e o que exige isolamento. E as pessoas não são iguais: pode-se escrever uma crônica, por exemplo, mentalmente durante um evento rumoroso e há o que exija a reflexão dentro de um silêncio ao menos aceitável, estudo e concentração em ambiente favorável. Pode-se pintar um quadro com crianças correndo ao redor do cavalete?!
Outra alegação seria a de que a modernidade virtual e digital ocupa pouco espaço e dispensa todo o que não sejam a três telas: a da TV, a do monitor e principalmente, a do celular. Quem acredita nisso, deve ler “Compre-me o céu”, da escritora chinesa Xinran: verá que civilização se gera com esse pressuposto. Apesar de que atribui as deformações dos jovens chineses à política do “filho único”, é mais do que evidente que o fator essencial é a “vida virtual”. Dá prá perder o medo da China, com essa leitura…
Recentemente, examinei um desses folders que nos entregam nas paradas dos semáforos: mesmo em se tratando de apartamentos supostamente caros, não há um mísero espaço de trabalho. Nem mesmo para um notebook. Os projetos não contemplam uma mesinha sequer para algum tipo de trabalho – digamos, para um livro aberto e um computador de mesa. Para trabalhar nesses lugares, é sentado na sala com os polegares agitando sobre a miserável telinha do telefone. Para trabalhar num notebook, vá para a mesa da cozinha ou da sala se jantar… e tanto pior para você se houver alguém fazendo uma refeição em algum desses lugares. Ou visitas conversando com algum outro morador, porque como regra, as salas são integradas. E também com as cozinhas, dane-se o cheiro do que está sendo preparado, não se distraia, se concentre, esqueça as agruras de ter sido verticalizado e adensado, como manda o figurino dos mentores do mercado imobiliário.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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