Um Hércules moderno

Quem o conheceu bem, diz que viu: durante uma mudança, o cara pegou um cofre – daqueles antigos, pesado como um caminhão – nas costas e subiu escadas acima, sem ajuda alguma.
Então, aqui vai, na tradição do “Grande Mentecapto” do Fernando Sabino, do “Pedro Malasartes” do Mario de Andrade e outros anti-heróis, dos quais o Brasil absolutamente não tem exclusividade. São algumas das aventuras desse personagem, contadas por ele mesmo, diante de público confiável, incluindo este que vos escreve.
As melhores de suas mais emocionantes aventuras, ele situava “no tempo da guerra” – quero crer que a Segunda – e por mim, têm influências de filmes de cinema ou TV. Ou, mais provável ainda, de desenhos animados. Mas eram proezas cinematográficas:
– Ele e um amigo descobriram um espião inimigo no acampamento militar, e não havia tempo de prevenir o comandante. Então saíram correndo na surdina e esticaram um fio de aço na estrada de acesso, onde o ignóbil traidor passaria, fatalmente voando em sua moto. O espião só descobriu que tivera seu pescoço cortado ao chegar diante de seu oficial e bater continência – quando então a cabeça caiu e saiu rolando;
– foi para a aviação e na volta de uma missão, viu-se perseguido por uma esquadrilha de “Zero” japoneses. Por mais que manobrasse, eles não descolavam da cauda do seu Spitfire. Então, mergulhou verticalmente seu aparelho e endireitou a poucos metros do chão – os aviões inimigos se espatifaram no chão.
Mas o melhor de seus “trabalhos” foi no local onde estava lotado como motorista, vejam só que injustiça, um herói desse porte. Numa roda de cafezinho, algumas impressionáveis moçoilas presentes comentavam sobre a altura de uma chaminé industrial deixada no parque próximo como relíquia. Coisa para trinta, quarenta metros ou mais, tijolos à vista, realmente um monumento ao engenho dos construtores.
Nosso herói não deixou por menos:
– Ela era mais aqui pra baixo, mas achamos que lá ficaria melhor, mais visível, né?
Uma das interlocutoras, que ouvira falar de suas proezas, fez cara de dúvida:
– Não me diga que foi você que mudou ela prá lá?!
E ele, na maior modéstia:
– É, mas não fiz sozinho, pra essa precisei de ajuda.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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