Um chato de galocha

No saguão de um desses imensos prédios comerciais, em pleno centro da cidade, as pessoas olhavam com desconforto e preocupação para a chuva que despencava a cântaros. Ainda chove a cântaros? Não sei, mas era muita a água que caía do céu cinza escuro. Um toró repentino, impossível de encarar sem proteção adequada. E ninguém ali tinha proteção, adequada ou não: as nuvens pesadas tinham surgido por trás da muralha de edifícios e, sem cerimônia nem aviso prévio de trovoada, despejado seu conteúdo sobre tudo e todos. Junto do meio fio corria um volumoso rio, descendo velozmente a rua e levando algum lixo – diante de nós, uma limpeza, mas sempre despertando a preocupação: onde vai parar e acumular tudo isso?
Os elevadores não paravam de desembarcar gente no saguão, vinda dos andares de cima. Vestíbulo que, sobre não ser grande, ainda recolhia passantes surpresos em trânsito pela chuvarada. O espaço estava já desconfortavelmente apinhado.
Então, junto da porta, um sujeito de aparência normal olhou para fora com um sorriso irônico. De uma pequena bolsa, tirou um par de galochas – aquelas que se usam revestindo os sapatos – e, meio encostado à parede, as calçou. Depois, tirou um envelope de nylon escuro, do qual extraiu uma capa de nylon – daquelas que transformam um pouco de umidade num cheiro insuportável, e que fez as pessoas mais próximas torcerem o nariz. Além do mais, fazem um ruído característico, ao serem desdobradas e vestidas. Indiferente a tudo e a todos, o tal sujeito a desdobrou, desabotoou e vestiu, abotoou de novo, puxou o capuz sobre a cabeça. Sempre na mais olímpica indiferença para com os circundantes, extraiu ainda da bolsa – autêntica cartola de mágico – um pequeno guarda-chuva. Já no limiar da porta, abriu, sacudiu para armar e, pronto, avançou impávido para a chuva.
Alguém comentou com inveja:
– Esse deve ser o famoso “chato de galocha”…
Talvez. Mas ele apenas atravessou a rua, entrando num carro estacionado do outro lado, diante do prédio. Ficou lá um tempo, desarmando e fechando o guarda-chuva, despindo e dobrando a capa, retirando as galochas – provavelmente, voltando tudo à pequena bolsa do kit anti-chuva.
Ligou o carro, que avançou espalhando água pra todo lado. Pingos que voaram brilhando ao sol que acabara de sair por trás das nuvens.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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