Um causo com patos

Nem sempre tenho bons causos para contar – pela simples razão que causos bons são raros ou não são contáveis, perdem a graça quando não são relatados com as manhas de um bom narrador.
Desse, recente, eu gosto, e acho que, como ocorrência, merece pelo menos registro.
Os personagens principais são patos – não o Donald, nem o Howard, nem o Patolino, nem nenhum desses emblemáticos anatídeos de gibi. São patos mesmo, do tipo com penas, andar rebolado e que fazem quac quac quac.
Aconteceu que num belo parque urbano, onde se preserva uma casa antiga, rodeada por extenso gramado, riacho com pedras e lambaris, surgiu uma dessas pragas da modernidade. Algum iluminado trouxe caramujos africanos com intenção de ganhar dinheiro – mas essas intenções, quando interferem no equilíbrio ambiental, são sempre desastrosas. Bichos enormes, e por serem o que são, lentos e gosmentos…
Inevitável: a criatura, sem seus predadores preferidos, se reproduziu, tornou-se vetor de doenças graves e agora têm que ser combatidos. A fórmula não é nova: jogar a natureza contra ela mesma. Há quem combata térmitas e escorpiões com galinhas, cobras com avestruzes e assim por diante. Parece que às vezes dá certo, embora o melhor fosse despoluir os ambientes e deixar que as coisas se controlassem no automático… Então, os responsáveis tiveram informação que os patos eram loucos por escargot, notadamente o africano. Não sei se procede, mas estou vendendo o peixe pelo mesmo preço que comprei.
Bem, havia na mesma cidade um outro parque onde um bando substancial de patos fazia um efeito decorativo muito interessante: todo mundo gosta de observar os animais, é divertido, instrutivo e sempre melhor que perder tempo diante da televisão.
Pessoal qualificado na captura de patos foi acionado, encheu-se uma Kombi com os ditos palmípedes, que foram transportados e soltos onde havia a infestação de caramujos.
E o inesperado aconteceu: para gáudio dos achatina fulica, os patos perceberam que lhes estavam impingindo gato por lebre, ou caramujo africano por escargot. E deram no pé, melhor dito, deram nas asas, sem devorar sequer um dos bichos que deveriam combater.
Quando me contaram a história, inicialmente me preocupei com a sorte dos patos, tirados de seu parque com lago e demais confortos, para dar conta de um serviço para o qual não estavam qualificados. Mas lembrei – antes de reclamar – que patos são desses seres agraciados pela natureza com um GPS de fazer inveja a qualquer Garmin: são das espécies que migram pelos continentes antes de os humanos criarem as caravelas.
A essa altura, estão de volta a seus parques, rindo e contando a seus amigos a nova esquisitice dos macacos-com-roupa, que deram de levá-los a passear em outras paragens e nem explicam para quê.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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