Tump tump tump…

…tump… tump… tump…
Parecia a cena clássica do Jurassic Park, com o tiranossauro se aproximando e antes que fosse visível. O tremor vinha do solo, mas era perceptível na xícara de café-com-leite e nas taças da cristaleira.
Excluiu a possibilidade de um terremoto, evidente que aquele ritmo era coisa humana, mecânica. Intrigado, saiu de casa e tentou seguir as vibrações do som: chegou à rua paralela, no terreno que fazia fundos com o seu. E imediatamente, descobriu que estava à mercê de um monstro muito pior que qualquer dinossauro.
A casa de madeira, que há dias ainda vivia, com seu entorno de árvores, plantas e animais, tinha simplesmente desaparecido. O terreno, estava cercado por um tapume de alumínio; diante dele, as árvores cortadas, ainda com suas flores e frutos, aguardando remoção como lixo. Por cima de tudo, o pescoço do tirano, digo, do bate-estacas.
…tump… tump… tump…
Outro vizinho olhava, desolado, para o “progresso” do bairro, foi puxar conversa.
– Lá se foi a casa daquela senhora idosa – os filhos a levaram embora e venderam o terreno, para dividir o dinheiro. Vai sair aí um prédio de seis andares.
– Mas o zoneamento só permite quatro, e já é demais…
– Você não conhece as nossas autoridades? Vendem explicitamente aos imobiliaristas o direito de não seguir as regras…
– É… com seis andares, teremos aí um volume de vinte metros de altura, fazendo sombra nas nossas casas, nossa privacidade vai pro espaço… mais sobrecarga na distribuição de água, de luz, e outras estruturas, que já não é boa e falha regularmente…
– Mais aumento de fluxo de carros e acidentes, de gente mal-intencionada, de olho no rompimento das relações de vizinhança, que é a única segurança efetiva que temos…
…tump… tump… tump…
– Vai virando tudo comercial, nossa vida de moradores infernizada por gente que só quer ganhar dinheiro e não nos respeita…
– É… depois que agüentarmos esse bate-estacas, vêm as infernais maquitas, betoneiras, andaimes de ferro… anos de tormento.
– E se ficasse num prédio… mas isso é praga, afasta os moradores das casas, daqui a uns anos é aquela densidade que detona com a qualidade de vida da gente… e ninguém será responsabilizado por isso, os construtores estarão longe, gozando os prazeres dos bairros de ricos, onde não se faz nada mais alto que um sobrado…
Cada um foi para sua casa, cabisbaixo.
…tump… tump… tump…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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