Home Colunistas Crônicas da vida urbana “Tudo o que tem nome, existe”

“Tudo o que tem nome, existe”

Durante as preliminares para as obras de restauro de uma antiga fortaleza, um trabalhador se prontificou a morar no local, acumulando a função de vigia.
O lugar tinha fama de assombrado, e avisei-o – antes de ter problemas trabalhistas. Resposta:
– Bom, tudo o que tem nome existe – mas homem tem que ter coragem.
Décadas mais tarde, li David Harvey e sua afirmação de que a modernidade começa pela adaptação – ou criação – vocabular. As palavras permitem o domínio das situações, e é evidente que, sem poder designar as coisas, não há como trabalhá-las.
Nosso cotidiano, sempre em rápida transformação, está entupido de exemplos: parece-me que o mais evidente, seja o universo digital. Sem assimilar umas duas ou três palavras novas diárias, não há como se situar na tecnologia. Mais claro ainda, é quando se entende que não há qualquer dificuldade, desde que se tenha a disposição para essa constante atualização: conhecendo as palavras, a gente “se vira” com qualquer aparelho.
Essas considerações podem ir muito longe, o que eu gostaria de evitar nesse momento. Por exemplo, todo esse vocabulário é em inglês, globalizante, e conseqüentemente, culturalmente daninho. Ou implica em conteúdos diferentes para conceitos existentes, o que é problema menor, visto que é quase normal, num idioma, uma palavra comportar mais de um significado.
Mas urbanamente falando, e para além da constatação de que estamos nos transformando em chips, dá pra ficar alarmado quando, por exemplo, se lê uma mensagem do pessoal jovem. Para eles, a colocação vocabular não é apenas instrumental, viabilizando o uso da tecnologia nas comunicações, mas é questão de modernidade e inserção grupal. É a própria linguagem que parece ser levada a adaptações para dar conta do recado.
Mas não é só na área digital que estamos sendo demandados a constantes reformulações. Isso até que é natural, em vista da nossa sociedade onde um consumismo exacerbado necessita uma orientação de rumos dentro de um mercado complexo e fora de domínio.
Um jantar com amigos ou familiares pode se transformar num exercício de ginástica mental, quando chegar o momento das considerações sobre o que, atualmente e claro que segundo interesses de mercado, é cancerígeno ou não – e que, no jantar seguinte, será invertido, moderado ou neutralizado. Mas, necessariamente, haverá novas palavras, de preferência imponentes, intimidantes e/ou assustadoras, sem as quais a gente não poderá mais conversar… Que saudades de quando a atualização vocabular era apenas a gíria!

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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