Trote telefônico

Sempre foi distração de gente sem serviço: incomodar quem o tem, com ligações de um humor mais infame que o da TV. Não por acaso é chamado “trote”, que é uma andadura de cavalo – e aqui cabe pedir perdão aos eqüinos que, segundo consta, nunca foram tão precários.
Os identificadores de chamada em parte resolvem o problema – mas convenhamos que ser obrigado a comprar um equipamento por conta da desocupação alheia, é dose pra cavalo, voltando à analogia anterior.
A “coisa” é pura covardia: protegido pela ausência de imagem, anonimato garantido, o passador de trote se sente no direito de perturbar. Vamos esclarecer: na minha opinião pessoal, o uso do telefone é, mesmo não se tratando de trote, muito irresponsável. As pessoas ligam sem necessidade, desconsiderando que um som irritante vai interferir na vida de alguém que pode estar precisando se concentrar numa tarefa. Ou acordar um neném de sono difícil…
Tem trotes criminosos: aqueles em que uma criança se diz seqüestrada e que, evidente, só será libertada com depósito numa determinada conta bancária. Ou aquele famoso “olha, estou te ligando porque sou teu amigo, quero te avisar que a tua mulher está no motel com um cara”. Enfim, o mau-caratismo telefônico não tem limites.
Se, por um lado, a telefonia celular praticamente eliminou a questão do anonimato, por outro estimulou a “irresponsabilidade telefônica”: liga-se de qualquer lugar por motivos fúteis, totalmente dispensáveis. Caso típico, “fazendo hora” numa fila qualquer, ou mesmo sem fila, aproveitar o tempo para “colocar conversa em dia”. Independente, é claro, da questão da ocupação do recebedor da chamada.
E o pior, o pior mesmo, são os trotes instituídos pelos políticos – recadinhos em épocas eleitorais – tão ridículos quanto suas campanhas. E inúteis, não conheço quem tenha votado em algum candidato por conta dessas mensagens obscenas.
É só isso? Não, tem muito mais. Sistemas que independem até de operador, operados por robôs, que fazem ligações “vazias”: atende-se ao telefone e não há alguém do outro lado. Nem o desafogo do xingamento se tem… Mas se há operador, caso raro, é alguém pago para essa tarefa de ficar ligando aleatoriamente, enchendo o saco, mesmo porque é inútil: se está vendendo algum serviço ou coisa, vai levar um esculacho dos mais pesados que se puder pensar no momento.
Quem ganha com isso? As operadoras, é evidente, tanto que não adianta reclamar: vamos escutar sempre que não dispõem de controle sobre esse uso do equipamento. Mesmo as listas de telefones indesejados que se podem programar em alguns casos, não impedem os abusos. Ligação feita é ligação cobrada por elas – agüentemos para garantir os lucros dessas multinacionais.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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