Toques de celular

O aparelhinho continua a me irritar, despertar antipatia e aversão como uma das grandes pragas urbanas atuais, junto com o automóvel, os prédios, o lixo. Mas sou obrigado, por um dever de sociabilidade, a aumentar meu índice de tolerância, em vista de todas as pessoas se entregarem às suas comodidades. Ainda me revolta que, sem ele, a gente possa perder direitos que são de cidadania e não de tecnologia: cadastros que recusam o telefone fixo; direito de estacionar na rua, que é um espaço público; ingressos em eventos promovidos por instituições oficiais e que só podem ser obtidos pelo maldito aparelhinho… e assim por diante, ad nauseam.
Muita aporrinhação poderia ser evitada se as pessoas tivessem noções simples – essas sim, obrigatórias – de civilidade, bom senso e cortesia – mas são qualidades, diria até virtudes, submersas em “politicamente correto”, que preconiza a cobrança insana de direitos os mais estapafúrdios sem correspondentes obrigações de cidadania.
O assunto de hoje, no entanto, é mais cordial em relação ao aparelhinho – como para mostrar que não há preconceito de minha parte, apenas irritação contra o abuso da coisa. São os toques que algumas pessoas escolhem para serem chamadas.
– Uma amiga, autoridade no sistema financeiro de um país vizinho – onde a boa educação continua a ser um valor urbano cultivado – usa um malicioso “fiu-fiu”, esquecido aqui na pátria amada porque pode dar lugar a um processo por assédio sexual. Nas reuniões da cúpula financeira de que participa, com discussão de crises e problemas, ser chamada por um familiar quebra a seriedade dos assuntos, descontrai e ameniza o ambiente com uma pitada de bom humor.
– Um jovem piloto, colocou em seu aparelho o som de uma turbina de jato sendo acionada. Evidente que esquecia de desligar no celular e, na hora da aula na faculdade, um Airbus parecia prestes a decolar entre as carteiras dos estudantes.
– Outra pessoa, mais de bem com a natureza, colocou cantos de aves para receber as chamadas. Muito lindo, apenas o problema era que, quando os passarinhos de verdade cantavam no quintal, ela corria em busca do celular – que, evidente, não estava onde o som era emitido.
Deve haver outros toques, criativos e capazes de reduzir meu enfezamento quando estou conversando com alguém – ou pior ainda, dando palestra – e toca o aparelho de algum mal-educado.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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