Home Colunistas Crônicas da vida urbana “Tem quem ache que a Câmera fotografa sozinha…”

“Tem quem ache que a Câmera fotografa sozinha…”

Dito pela senhorinha que me atendia num dos poucos laboratórios de processamento da cidade, era para ser um elogio – e era de fato.
Eu fotografava então com uma antiga câmera francesa, comportando negativos 5 X 7 centímetros, que passavam de um carretel a outro, acionados por uma “borboleta”, depois de carregar no escuro.
Para fazer as fotos, escolhia-se uma velocidade – que ia de um a 1/250 de segundo; e uma abertura de diafragma compatível. Enquadrava-se por um visor lateral – apenas uma moldura, nenhum recurso ótico – na altura do portentoso fole retrátil da objetiva, que não compensava a paralaxe.
Acertar uma foto com esse equipamento exigia atenção a todos esses detalhes – e o entendimento de sua participação no resultado. Havia ainda os cuidados para não ficar de frente para a fonte luminosa ou, pelo contrário, deixar que a própria sombra aparecesse sobre o motivo. Flash era um equipamento tão complicado que só profissional encarava.
Na verdade, uma seqüencia de cuidados simples, mas nenhum podia ser esquecido.
Retirado o carretel da câmera – sim, no escuro – era levado ao laboratório e se esperavam vários dias pelo processamento e pela recompensa: se todos os requisitos estavam atendidos, as imagens eram de ótima qualidade. As fotos eram apresentadas em cópias do tamanho dos negativos – e margem branca com bordas serrilhadas, para o que havia uma tesoura específica.
Graças a essas “dificuldades”, poucas fotos se perdiam – o cuidado na obtenção da imagem era recompensado quando se dispunham as cópias nos álbuns. Esses eram de folhas espessas e opacas – pretas ou grafite – e as fotos afixadas com cantoneiras de cola dita “tropicalizada”, isto é, colavam depois de lambidas ou umidecidas em esponja molhada, o que evitava que o álbum cheirasse a cuspo…
Não, não vou terminar lamentando a banalização da fotografia – é uma arte que os tempos facilitaram. É compatível com a nossa vida em superpopulação e consumismo desvairado. Mas pra entender o quanto, é preciso ter vindo dos tempos das câmeras francesas, com fole, quando quem fazia uma boa foto era o fotógrafo e não a câmera.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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