Quarentena urbana

É muito estranha essa situação – quem vive em países que já passaram por situações de conflitos armados, talvez a conheça – mas nós aqui, que de guerras só temos notícias nos livros de história, temos bom motivo para estranhar.
Lembro de casos acontecidos na família, com pessoas que tinham vivido durante a Segunda Guerra na Europa: por exemplo, uma senhora que, quando faleceu, os parentes encontraram sob a cama pacotes de mantimentos guardados para situações desesperadas. Não sei se chegaremos a isso – mas talvez fosse uma boa lição ao péssimo hábito brasileiro do desperdício.
Vejo, em reportagens, as cidades italianas e europeias vazias, totalmente paradas. Na verdade, é nesse momento que eu gostaria de estar por lá, sem as hordas de turistas que enchem tudo, lotam tudo, vulgarizam tudo. Me imagino circulando por Veneza sozinho, os canais sem trânsito, aqueles espaços e museus fantásticos à minha disposição… Seria o momento de poder conhecer as paisagens sem interferências humanas, ainda que estas, em alguns casos, não sejam totalmente negativas. A presença de gente dá ideias de escala e de funcionalidade, afinal para os seres humanos foram feitas as construções e os logradouros. Mas não na quantidade que somos obrigados a tolerar atualmente.
Mas assistir a essas matérias indiretamente é uma coisa, vivê-las em nossa cidade é outra bem diferente. Somos uns mimados, as situações de restrições mais graves que conhecemos são decorrência dos desastrados planos econômicos governamentais. O que não deixa de ser uma guerra, nossa contra os políticos…
Sempre vivi numa cidade que pode ser considerada “normal”, isto é, você tem agito ou tem calma se procurar. À parte dos imbecis dos escapamentos, e um ou outro desacerto urbanístico, é tolerável. Mas a situação de quarentena, do tipo “só saia de casa se isso for indispensável, senão o bicho te pega”, é novidade.
Nas áreas rurais existiam as entidades assustadoras, que atualmente só quem se preocupa com folclore conhece – sacis, boitatás, cucas, curupiras – mulas-sem-cabeça não, essas migraram há muito para a política. Mas são seres quase cordiais, dá até pra negociar, com alguns, a invasão de seus domínios. Não é assim com o tal Vírus Chinês: ele invadiu a tua cidade, tuas ruas e tuas praças, teus locais de encontrar os amigos. Se bobear, invade a tua casa e o teu organismo e daí você tá ralado.
E o pior: uma notícia recente, confiável, dada por cientistas da área, diz que é pra gente acostumar: de onde veio esse, virão outros, é só pagar pra ver.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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