Pesadelo urbano

Uma das piores experiências da minha vida, passada integralmente na cidade – antes média e agora, infelizmente, grande – foi visitar um lixão. Em vários momentos dessas crônicas, isso deve ter comparecido – e não é demais insistir.
Entendo que a humanidade só fará as pazes com o planeta no qual está alojada, quando resolver essa questão. Isto é, quando nosso impacto sobre o ambiente for zero. Considerando o ponto ao qual chegamos, acredito mesmo que seria necessário uma incidência negativa, na qual a natureza ficasse como devedora. Mas se isso é possível, não conheço os caminhos.
O cenário é de pesadelo as colinas de detritos perdem-se de vista. Algumas foram cobertas com lona plástica, outras com terra – e algumas são como fratura exposta, montanhas e montanhas de lixo fedendo horrendamente.
Pior que a paisagem, que remete à ficção científica de antecipação pessimista – e não há otimismo que supere esse panorama – É PERCEBER O QUANTO ELA É VIVA. Ou o quanto é povoada: ratos, urubus e, pasmem, seres humanos.
Estes estão representados nos caminhões que aumentam a altura das montanhas, despejando seu conteúdo nos lugares mais baixos. Nem a carga chegou ao chão e, sobre a avalancha ainda em movimento, sobem crianças, agarrando o que acham de “melhor”, graças à sua agilidade. Depois, tratores irão espalhar, compactar e enterrar tudo – mas no terreno assim formado, vagam seres com saco às costas, catando algo aproveitável. Não conheço nada mais deprimente – a não ser lembrar que tudo isso se repete todos os dias, até o fim do mundo que, se começa a desejar, não esteja longe.
Como se não bastasse, dessas montanhas vai escorrer um veneno que irá poluir toda a água: rios e riachos irão ser os primeiros a morrer; seguidos dos rios maiores, lagos e, suprema covardia: os lençóis freáticos.
O cheiro nauseabundo já sentimos de longe, coitadas das comunidades obrigadas a conviver com ele. Deve ser impossível viver num raio de quilômetros.
Vão também produzir um gás inflamável e combustível: para evitar explosões, ele é incendiado. Frestas no solo criado pelo aterro estão permanentemente acesas, à noite é uma paisagem fantasmagórica, de pesadelo.
Mas infelizmente não é pesadelo: é real, neste momento em que escrevo e em que você me lê, está acontecendo. Não na minha cidade ou na tua, mas em milhares de cidades: não sei se algum lugar do mundo consegue a proeza do lixo zero. Desconheço tentativas nesse sentido, apenas amenizantes que ainda não suprimiram, da nossa vida urbana, essa insanidade.
É um dos investimentos mais necessários para estabilizar nosso dano ao planeta: fazer com que nossos detritos urbanos sejam neutralizados.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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